segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Porquê Prometheus ?

O Mito

A mitologia não é um conjunto de textos considerados sagrados e intocáveis, como é o caso dos "Livros" das doutrinas abraâmicas, pelo contrário os mitos foram sofrendo variantes, em versões mais ou menos diferenciadas, embora no respeito das estruturas originais.
As mitologias europeias, desde a nórdica-germana à grega, passando pela eslava, pela celta ou pela romana tratavam as suas divindades de uma forma bastante livre pois, não tendo dogmas, a noção de heresia era-lhes deconhecida !
Houve uma época em que os mitos estavam directamente relacionados com os ritos realizados no contexto dos mais variados cultos, mas com a passagem do tempo uma fractura foi surgindo entre o "ossificado" ritual dos cultos e o florescimento dos textos mitológicos.

Na Grécia, como caso paradigmático, pouco a pouco o mito distancia-se da crença, torna-se flexível, maleável… ganha "asas" e dessacraliza-se, obtendo liberdade, como pode ser confirmado pelas manipulações genealógicas de mitos como Prometeu, Édipo ou Medeia.

Manipulações que também encontramos na obra de Platão, não somente um contemplador como também um criador de mitos, concedendo-lhes um lugar importante na sua argumentação.
De referir que, no caso de Sócrates, Platão criou o mito de um "quase herói" do argumento e da retórica, baseado num individuo que, na realidade, era um torpe e viciado.
Outros mitos, de certos heróis como Orestes, Jasão ou Teseu são colocados ao serviço da propaganda política, acentuando-se a impossibilidade para os heróis de escapar ao oráculo desvelado pelos sacerdotes, propondo-se a tipificação da transgressão, fundadora, cósmica ou sacrilega.

O mito é um relato de acontecimentos que sucedem num tempo primordial e longinquo, num tempo fora da História, numa Idade de Ouro, sendo o mito cosmogónico verdadeiro porque o mundo existe, e o mito identitário verdadeiro porque é real a comunidade de que ele é imagem. Recitar o mito produz uma recriação do mundo pela força do ritual.

Prometeu : previdente e rebelde

Na mitologia grega, Prometeu (em grego "Promêtheús, "o Previdente"), é um Titã que, segundo a "Theogonia" de Hesiodo (século VIII da Era Precedente - EP), criou os homens a partir da argila, acção que o grego Pausanias (século II da Era Actual - EA) localiza na Fócida ("Phokída, em grego), na Grécia central.
Ainda segundo Hesiodo, depois de criar o Homem, e contra a vontade de Zeus (deus principal do Olympo), Prometeu proporcionou à Humanidade o conhecimento e o controlo do fogo (no sentido de "luz", "conhecimento").
Zeus, para o castigar, fê-lo prender e encadear no cimo de um rochedo dos montes Cáucaso, para que sofresse o suplicio de diariamente ter o figado devorado por uma águia gigante, figado que se regenerava durante a noite para que a tortura não terminasse.
Heraclés (que os romanos denominam Hercules) liberta Prometeu, matando a "águia do Cáucaso" (em gr. "aetos kaukasios"), águia que o autor romano Caius Julius Hyginus (67-17 EP) nomeia como "águia Ethon" ("aethonem aquilam").

O mito de Prometeu corresponde à metáfora da entrega do conhecimento aos humanos.
Depois de Hesíodo, Ésquilo faz dele um simbolo de inteligência que transmite conhecimento aos humanos primevos, para melhorar a sua condição. Após os gregos, os romanos continuam a enriquecer o heróico personagem.
O dogmatismo religioso medieval pretende fazer desaparecer Prometeu, mas o Renascimento suscita o interesse de Boccacio (1313-1373), de Marsile Ficin (1433-1499), de Pico Della Mirandola (1463-1494) e de Giordano Bruno (1548-1600).
Prometeu é objecto de uma reflexão que atinge Desiderius Erasmus (1468-1536) e Francis Bacon (1561-1626).
Wolfgang von Goethe (1749-1832) trabalhou durante cerca de trinta anos - tanto como para "Fausto" - para apresentar em "Prometheus" um criador independente de todo o poder exterior a si mesmo.
No poema de Goethe, Prometeu é o rebelde (já aparente no mito) que subtrai do Olympo o fogo sagrado ("conhecimento"), contra a vontade de Zeus, o deus dos deuses, para o entregar ao Homem. Prometeu é, para Goethe, o grande rebelde que desdenha a autoridade divina.

A importância do tema manifesta-se na arte como na literatura, de Balzac, a Schlegel, a Byron, a Shelley, a Victor Hugo…
Entre 1800 e 1801, Ludwig van Beethoven escreve "Die Geschöpfe des Prometheus" ("As Criaturas de Prometeu"), um "ballet" para orquestra (op.43), estreado em Viena a 28 de Março de 1801.
Único "ballet" de Beethoven, com um argumento que fazia referência ao acto rebelde de Prometeu, desafiando a autoridade da divindade e animando duas estátuas de argila, por ele modeladas.
Emn 1899, o "Prométhée mal enchaîné" de André Gide renova o mito através da revolta, da reivindicação de liberdade e da emancipação das normas.

O mito de Prometeu perdura há quase 3000 anos, e esta extraordinária permanência evidencia como está impregnado na memória dos europeus, e por isso se revela com uma constância testemunhada através das mais diversas manifestações culturais, da filosofia ao teatro, do romance à arte.
É um mito de uma fabulosa riqueza que, talvez, ainda não tenha terminado a mensagem que nos transmite.

3 comentários:

Thoth disse...

Como deus; este texto excelente merece que eu faça um link para o Prometheus...

Cumprimentos

Marcos disse...

Me parece que não há menção, na "Teogonia" de Hesíodo (e nem no outro poema dele, "Os Trabalhos e os Dias") de que Prometeu teria sido o criador dos homens (dei uma re-olhada aqui nos dois poemas, antes de postar, e não encontrei passagens que abonassem a afirmativa de que Hesíodo teria dito isto).

Esta concepção (da criação do homem por Prometeu) se acha, por exemplo, em:
. Apolodoro Mitólogo ("Biblioteca" 1, 45);
. Ovídio ("Metamorfoses", 1, 82);
. Higino ("Fábulas" 142);
. Pausânias ("Descrição da Grécia" 10.4.4), etc.
Como se vê, é versão presente em fontes mais tardias.

Mas, pelo que pude conferir, não em Hesíodo.

Purehemp disse...

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