domingo, 14 de janeiro de 2007

Hesperia Hesperial

Para o biólogo e zoólogo austriaco Konrad Lorenz (1903-1989), a "civilização ocidental", peor que o controlo ou a opressão, instaurou a "domesticação" dos individuos, o que se traduz por perda de comportementos especializados em beneficio da hipertrofia de necessidades básicas como a sexualidade e a alimentação.
Lorenz assinala uma série de "pecados" que caracterizam essa civilização, tais como o sobrepovoamento, a devastação do meio-ambiente, a degradação genética, a ruptura das tradições e os endoutrinamentos.
Por sua parte, Thomas De Koninck, da Universidade de Laval (Québec - Canada), insiste na "ignorância", cada vez mais presente a todos os niveis da sociedade.
Com efeito, o ensino é orientado à especialização, formando profissionais de "saberes técnicos", cada vez mais distanciados do nivel médio de uma cultura de conhecimento.

Com uma eficácia herdada do marxismo soviético, a "civilização ocidental" realiza uma experiência social que pretende garantir o triunfo de uma dinâmica homogeneizadora num processo de involução cultural, lançando a sua "teia" sobre os povos dos cinco continentes.

Convém ter presente que "civilização ocidental" não é sinónimo de "civilização europeia", mas sim um fruto transmutado e monstruoso da "cultura europeia", da qual tomou o dinamismo, mas prevertendo-a basicamente com uma estruturação igualitária e de conveniência circunstancial resultante dos messianismos monoteista judeu-cristão e enonómico-crematístico marxista.

A aplicação prática desses messianismos à politica, enriquecidos já pela metodologia de Gramsci, terá como "guia" a "Teoria Critica da Sociedade", desenvolvida pelos marxistas do "Institut für Sozialforschung" ("Instituto para Pesquiza Social"), também conhecido como "Frankfurter Schule" (Escola de Frankfurt), da Universidade de Frankfurt-am-Main na Alemanha, dirigido em 1930 por Max Horkheimer, e que será a "pedra-angular" sustentadora do denominado "marxismo cultural", o qual chegará até aos dias de hoje sob a eufemística denominação de "political correctness" ("politicamente correcto").
A "Teoria Critica", em cujo desenvolvimento participaram, entre outros, e além do citado Horkheimer, T. Adorno, W. Benjamin e H. Marcuse, terá a sua base nos EUA, para onde emigram os membros da "Frankfurter Schule" acossados na Alemanha de final dos anos 1930, pela sua condição de marxistas e judeus.
Imediatamente após a guerra de 1939/45, a "Teoria Critica", prenhe de financiamentos e benesses, recebeu um impulso decisivo que colocou o marxismo, já em perda de influência política, na cresta da expansão cultural, introduzindo-se e enraizando-se nas teses socialistas e social-democratas… assim como na denominada democracia-cristã.

A componente monolátrica da "civilização ocidental" é claramente reconhecível no seu projecto, essencialmente idêntico ao anteriormente pretendido pela sociedade soviética, impondo uma "civilização universal" fundada na primazia da economia (crematística) como forma de vida, e convertendo a cultura num sistema de símbolos orientados à manipulação dos individuos em beneficio de uma "gestão" tecnocrática mundial.

Assim, o termo "ocidental" não traduzindo mais a essência da Europa, preferimos adoptar o termo "hesperial", uma palavra ainda enigmática para muitos que Martin Heidegger (1) utilizou para qualificar a virtualidade da "civilização europeia". Para a Europa, "Hesperial" pressupõe a sua civilização própria, a sua essência, a sua cultura liberta de "modelos" forâneos.

Como nos diz Guillaume Faye (2), o termo "Hesperia" surge num fragmento do filósofo pré-platónico Anaximandros (3), que Martin Heidegger introduz no conceito de Abend-Land, opondo-o a Abendland (Ocidente), e que foi afortunadamente traduzido com o termo original grego.
"Hesperia", significa em grego "terra do poente", no sentido contrário à "aurora", "terra do nascente", uma visão não geográfica, mas incluida num sentido "mágico" de final de um ciclo, e um retorno à "aurora".
A "aurora do pensamento" tem como destino o "Hesperial", um destino que não é fim, mas semente para um retorno !

Retornar à "Hesperia", consistiria em realizar a nossa vontade de poder como europeus, conscientes da nossa filiação filosófica grega, e não como ocidentais que esquecem esta procedência.(4)
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(1) - Martin Heidegger (1889-1976)
(2) (4) - Guillaume Faye - "Pour en finir avec la civilisation occidentale" in "Eléments, n° 34, Avril-Mai 1980"
(3) - Anaximandros de Mileto (610-546 da Era Precente)

4 comentários:

Rodrigo disse...

Brilhante, brilhante. Já lhe disse no fórum e digo-o aqui, não sei de onde surgiu mas ainda bem que se juntou a nós. Este blog merece mais divulgação, junte uns links, inscreva-se no sitemeter e faça uns comentários pela blogosfera de quando em vez...isso chamará visitas.

Em relação ao texto há uma questão que coloco a reflexão, sendo que eu próprio escrevi já, sensivelmente nos mesmos termos que o António aqui o fez, sobre a diferença entre Ocidente e Europa, gostaria de saber até que ponto concordaria que o Ocidente, realidade que serve sobretudo para descrever o espaço dominado pelos valores da América, acaba por ser o resultado de uma cultura individualista e desenraizadora, que surge parcialmente do iluminismo e que ganha expressão nos EUA sem que aí existisseM, ao contrário da Europa, os factores estruturantes, tradicionais, prévios ao advento das «luzes».

Arqueofuturista disse...

Fazendo minhas as palavras do Rodrigo, considero este postal muito esclarecedor e de relevante importância no que se refere ao equívoco em que alguns camaradas caiem quando, em não poucas vezes, confundem Europa com Ocidente, sendo que o Rodrigo caracterizou muito bem no seu comentário o que na realidade representa este último.

Maria disse...

Vim aqui a instâncias do Blog/Bloguista NONAS, pois nem sequer sabia da existência deste Blog. Fiquei absolutamente maravilhada com a leitura (claríssima) dos textos e de como os temas neles abordados são impecàvelmente descritos e analisados.
Muitos parabéns pelo excelentíssimo (novo) Blog e pelo que li hoje e tendo, embora, em conta a sua curta existência, considerá-lo-ia na minha humilde opinião um dos melhores - dentre os poucos "muito bons" - da Blogosfera.
Continue a este ritmo e igual qualidade de escrita e temas, que irá muito longe na consideração de quem tem a honra de o ler, afinal quem verdadeiramente interessa neste mundo virtual. E num futuro não longínquo - espera-se - ser-lhe-á certamente outorgado (a si e a mais alguns excelentes bloguistas) e sê-lo-á com todo o mérito, acrescente-se, um primeiro prémio certamente ex aequo, num esperável concurso público, talvez, a instituir na Blogosfera, que irá justíssimamente consagrar os melhores Blogs e bloguistas portugueses.
Os jornais e a generalidade das publicações, a chamada comunicação social no seu todo, salvo honrosíssimas excepções, está, por sua própria culpa, às portas da morte - quanto mais não fôra (e muito mais há) pelas inexactidões e deturpações das notícias, mentiras permanentes, semi-verdades, falsidades e constante anulação e achincalhamento do sentir patriótico dos portugueses e dos seus Heróis e dos seus símbolos pátrios e do abastardamento permanente, continuado e propositado do seu segundo Bem mais precioso como Povo, a sua língua - com o advento deste novo e exemplar meio de comunicação global. Que se salvem as excepções honrosas e que a outra desapareça de vez e paz à sua alma, pois. A verdadeira comunicação social (autêntico serviço público) na sua imensa diversidade e genuinidade na correcta acepção do termo, está, sem a mais pequena sombra de dúvida, na Blogosfera. E jamais deixará de o estar daqui para o futuro. Assim se espera e deseja para bem dos portugueses e da lenta mas firme recuperação da sua sanidade mental perdida nas últimas 3 décadas.
Renovo-lhe os parabéns.

Maria

Anónimo disse...

El arrepentimiento es la aurora de la virtud (Karamzine)