terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Entre duas eternidades !


O tempo passa,
o Sol existe…

o desejo vai-se,
mas a vontade fica.

A vida esvaece,
o menino é velho…

a viagem é longa,
mas a recordação permanece.

---

A todos
felizes festas solsticiais
e bons augúrios
no futuro de cada um !

A vossa grata companhia
foi para mim uma honra e um prazer.
Até sempre !

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Nacionalismo !

Conceito
Teoria
Organização
(4/4)

4. Fundamento Conceptual do Nacionalismo

Insistimos em que o trabalho inicial dos nacionalistas é determinar o fundamento conceptual do nacionalismo que provém de nós mesmo, como povo.
Várias áreas devem ser estudadas para que, a partir de conceitos claros e esclarecidos, se possa desenvolver uma "teorização política", uma proposta de organização que nos enquadre como fenómeno nacionalista e nos permita transparecer como Nação.

A História deve ser interpretada como instrumento de aprendizagem que os nossos ancestros nos deixaram, não como um acumular de lendas, de glosas míticas, de milagres fundacionais ou de acasos proféticos.
Uma Nação não nasce por decreto, nem por bula papal !
Uma Nação é "um todo coeso", um laço cultural expresso por um povo num contexto territorial.

Que referência cultural se pode deduzir quando se divaga entre as mais variadas concepções de ética, de estética e de religiosidade ?
A que Nação se reporta quem devaneia entre conceitos de "território como parte da Nação" e "território como constituinte de um país" ?
Como seria interessante que, quem se pretende nacionalista, tivesse a consciência de que denominar uma "população" como "povo" não passa de uma afirmação manipulada (ou manipuladora), mas que não altera uma virgula à realidade, à distinção étnica e etológica existente sobre o terreno !

Que pretendemos ?
Fundamentar o conceito "nacionalista" e tentar viver nele e com ele, numa simbiose conseguida, ou continuar a discutir virtualidades, como se estivessemos a dialogar com o coelho de Alice no outro lado do espelho ?

Nacionalismo é a defesa de uma identidade nacional, é um conceito étnico-cultural que pretendemos se expresse através de uma "teoria política" que devemos formular, adequando a sua formatação à realidade que somos e ao futuro que pretendemos.

É desde a Nação que deveremos pensar a Europa. Não o contrário !

Tenhamos sempre presente as palavras que proferiu, na defesa do "seu" globalismo, o barão Edmond Rothschild à revista "Entreprise", em 18 de Julho de 1970, sobre a constituição do Mercado Comum Europeu, fase que precedeu a actual União Europeia :
"… (como condição) a estrutura que deve desaparecer, o ferrolho que deve saltar, é a nação" !

Sejamos conscientes do enfrentamento entre o nacionalismo, que é garante da identidade de cada povo, e a miscigenação mundialista expressa pelo sistema liberal-marxista, aparentemente contraditório, cujo objectivo é o total desenraizamento cultural dos povos e a criação de um governo mundial.

Cremos firmemente que, para um futuro consequente, o trabalho dos nacionalistas (em cada Nação) deveria percorrer três etapas fundacionais (eventualmente subdivididas) :
1. Significação Conceptual
- conceitos filosóficos
2. Teorização Política
- estrutura do Estado
3. Organização e Actuação
- prospectiva

Com um razoável consenso nestas premissas, as nações europeias poderão "formatar" uma Europa Identitária !
Senão, o nacionalismo continuará a ser, para uns, um exercício intelectual, para alguns, um passatempo e, para outros… uma actividade (consciente ou não) que provocará o esvaecimento do "ferrolho" designado por Edmond Rothschild !

Despertemos a cultura imanente em cada Nação, interliguemos os conceitos e avancemos no caminho da Europa Identitária…

Como diz o poeta :
"… o caminho faz-se andando !".
.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Nacionalismo !

Conceito
Teoria
Organização
(3/4)


3. Europa e Nacionalismo

Existem posicionamentos que advogam por "pensar Europa já e agora", e outros mais críticos relativamente à oportunidade de optar desde já pela Europa. De entre os primeiros, distinguimos os que creem que uma Nação é algo de perene e que á dado adquirido como parte constituinte da Europa, e outros, bem intencionados, mas que se comportam como borboletas nocturnas encandeadas pelo "farol europeista" !
Desde uma perspectiva analítica também é por demais evidente a actividade de alguns émulos de Fausto que, com propósitos inconfessáveis, exaltam uma Europa alquímica, saida de alguma retorta do Grande Arquitecto, com o evidente objectivo de transmutar a Nação em poltronas de eurodeputado.

Quando Drieu de la Rochelle defendia uma solução europeia, essa solução passava por uma França (culturalmente dominante) aliada a uma pujante Alemanha nacional-socialista, referindo uma Europa conceptualmente fundamentada em valores étnicos e culturais que hoje somente encontramos nas hemerotecas.

Sejamos conscientes de que o denominador comum que têm, na actualidade, os povos de regiões como a Wallonie belga, o Vaud suiço ou o Vale do Ave português, é a sua acelerada perda de identidade ! A rotura drástica e dramática com os laços culturais que os uniam ao seu território. Na Europa de hoje, como na Europa que alguns (consciente ou inconscientemente) pretendem, as Nações desvanecem-se !

Que Europa se pretende ? Uma Europa sem Nações ?
Uma "pátria europeia" habitada por uma população multi-étnica e culturalmente "miscigenada" ?
A Europa financeira dos bancos e das empresas, dos negócios, da usura e dos lucros ?
Não será isso embrulhar o nacionalismo em reluzente papel e oferta-lo a quem pagar mais subsídios ?

Como já o escrevi repetidamente, e em nada altero o afirmado, estou intimamente convencido de que devemos lutar por uma Europa forte, mas, e sem lugar a dúvidas ou tergiversação, étnica e culturalmente coesa.

Que a árvore não nos esconda a floresta ! Se primeiramente não nos constituirmos em Nações autónomas de qualquer poder central e centralizador, em Nações representativas de uma realidade cultural, falar em nacionalismo é uma falácia !
Europa não é, nunca foi uma Nação, mas um conjunto de Nações étnicamente próximas (antes da invasão migratória) e culturalmente compreensíveis.

Pretender, como Lenine, uma Europa de Repúblicas Socialistas, ou uma espécie de Império "envergonhado de o ser", como propõe Jean Thiriart, ou um negócio financeiro montado numa manipulação cultural, estilo União Europeia, ou uma Europa do arquipélago das Curilhas ao dos Açores, e de Instambul a Rabat, não é, seguramente, respeitar as tradições, as "agraphoi nomoi" que são o bastião da nossa cultura !
Provavelmente, os que defendem essas "soluções", pensem (por manifesta ignorância e manipulação) que Carlos Magno foi um grande protector da cultura europeia, tal como tinha sido o Império de Roma ou a evangelização cristã...
E aí não nos encontram ! Porque é um engano, uma burla política, uma falácia…

O projecto da "Nova Ordem Mundial" é criar grandes blocos económicos sem conteúdo cultural !
Nesse sentido se vão formatando a União Europeia, a Mercosul, a Asean e a União Africana.
Posteriormente, será fácil tudo amalgamar num mercado global, num Estado global… dirigido por um governo Mundial !

A afirmação nacionalista é um conceito identitário, não é uma teorização política, nem se engloba no ardil das direitas ou das esquerdas.
E a nossa afirmação nacionalista, com respeito por todas as outras que se manifestem no território europeu, relaciona-se com a defesa da "nossa Cultura", do "nosso Povo" e, consequentemente da "nossa Nação" !
A partir desta base, poderemos participar na compreensão de uma Europa Identitária !
Não num "mercado comum" !
.
continua para 4/4
.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Nacionalismo !

Conceito
Teoria
Organização
(2/4)
.
.
2. Teorização Política

Como demonstrou o fundador da antropología política, Pierre Clastres (1934-1977), em "La société contre l'État" (1974), a ligação entre "Política" e "Estado" não é tão evidente como habitualmente se crê, pois existem formas de organização que evitam a aglomeração do "poder" no Estado, competindo à "teoria política" desenvolver a formatação do Estado, com base numa fundamentação cultural estruturada pelos conceitos filosóficos assentes nos valores primevos dos individuos que constituem a Nação.

Parece-nos provada a necessidade de constituir um "corpus philosophicus" fundacional da "teorização política", antes de "desenhar soluções de pormenor" ou, pior ainda, copiar dos alfarrábios soluções "read-made" !

Provindo o termo do grego "theorein", "teoria" significa "contemplar, observar, examinar", e "teoria política" é, como qualquer outra teoria, um quadro de trabalho para compreensão de uma proposta.
Em linguagem corrente, uma teoria é um conjunto de conceitos, fundamentados em teorias precursoras ou em casos reais, conducentes a um resultado especulativo, a uma representação ideal.

Desde a lógica das matemática, diz-nos o primeiro teorema de Kurt Gödel (1931), que (numa teoria) existem enunciados que não são demonstráveis e cuja negação tão pouco é demonstrável !
Se assim é numa ciência exacta como as matemática… na política arriscamos navegar na mais pura virtualidade !
E para que essa virtualidade não se transforme em enunciado dogmático, devemos ter recurso à "fundamentação cultural estruturada pelos conceitos filosóficos".

Se nos fixarmos nas propostas políticas ditas nacionalistas encontraremos a nivel da teorização política "um pouco de quase tudo" !
Desde o fascismo, ao nacional-socialismo, ao nacional-bolchevismo, ao salazarismo (católico-corporativista), ao franquismo (falangista), ao europeismo (nas mais diversas tonalidades), ao monarquismo lusitanista (integralismo), e um longo etc, todos se dizem nacionalistas e afirmam o seu desejo de uma solução política "nacionalista" !

Como Blaise Pascal, perspectivemos uma "ucronia" !
nota : história alternativa de um evento particular modificado, imaginado, através do qual o autor estabelece conclusões hipotéticas.
"Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais pequeno, a face da terra teria mudado"
- Blaise Pascal in "Pensées"..

Se toda a vontade nacionalista antes referida, chegasse a uma vitória política e, consequentemente ao "controlo do Estado", quantas horas tardariam a lançar-se (mutuamente) à cabeça, as cadeiras do "poder" ?
Como poderia um nacionalismo monárquico aceitar uma solução republicana ? E o nacional-bolchevismo colaborar com os fascistas ?
Perante o que nos demonstra a realidade, as variáveis são tantas (incluindo os "infiltrados" e os "inocentes"), tantas as teorizações políticas, que o "poder teo-democrático" em funções pode "ressonar sem sobresaltos" !

Parece-me óbvio que sem uma "fundamentação cultural" consequente as divagações prosseguirão, cada hipótese continuará a afirmar-se como sendo a mais acertada e, todas (ou quase) continuarão a considerar o "nacionalismo" como uma teoria política mais.

Não, não sou pessimista, mas tão pouco sou optimista ! Esses sentimentos não se coadunam com a análise responsável de um projecto politico.

Temos necessidade de nos elevarmos por em cima da fragmentação teórica do saber político que envolve o nacionalismo.
A filosofia não teoriza a política, mas fundamenta os conceitos necessários à sua expressão, e creio ser já tempo de enquadrar a teoria política nacionalista com o conceito adequado !

Uma das primeiras cacafonias teorizadoras com que deparamos nas páginas "web" e nos "fórum", assumidamente nacionalistas, assim como numa variada literatura existente, é a confusão entre o significado atribuido a certos vocábulos e a sua real significação.

Dois dos mais sintomáticos exemplos são, "nação - pátria" e "povo - população".
Confundindo "povo" com "população", dilui-se a noção de etnicidade, uma estrutura fundacional do nacionalismo… Amalgamando "nação" com "pátria", abandonamos decididamente o campo nacionalista pelo patriótico, a visão de futuro pela simbologia do passado !
Nada mais que esclarecer os exemplos apontados e teriamos uma importante redução nos candidatos a nacionalistas.

Outro aspecto, nem o último nem o menos importante, é o enfeudamento a soluções "prontas-a-utilizar", o recurso a teorias aplicadas em periodos históricos recentes e que ainda brilham no imaginário politico de muitos.
Não nego o interesse em conhecer essas experiências, que podem, na devida perspectiva histórica, enriquecer conceitos ou complementar teorizações, mas saibamos distinguir o antigo do velho, o texto lúcido e pertinente da retórica fora de circunstância.
.
continua para 3/4
.

sábado, 24 de novembro de 2007

Nacionalismo !


Conceito
Teoria
Organização
(1/4)
.
.

Entendemos o Nacionalismo, não como uma prática política mais, mas como uma forma de estar na vida, um estado de vivência…
Neste contexto, consideramos ser fundamental a clarificação de certos conceitos divulgados por teorias e doutrinas que, pelo mimetismo imposto pela moda e, menos eufemisticamente, pela ignorância, assumem significados que o não são.

O Nacionalismo é, em si mesmo, um conceito com nome próprio que não suporta adjectivações !
Referir um nacionalismo adjectivado (e.g. "nacionalismo revolucionário" ou "nacionalismo liberal") é pretender reduzir um conceito abrangente, incluente de toda uma "nação", a uma mera teorização política a que (não poucas vezes…) nem falta a abstrusa designação de esquerda ou direita.
"A fortiori", o termo "nacionalismo" poderá ser identificado pelo nome da Nação a que se refere (e.g. "nacionalismo escocês").
nota : não confundir "nacionalismo" com a destruição dos valores tradicionais (éticos e estéticos) que grupos marxisantes, aliados ao socialismo maçónico, pretendem realizar em Espanha.

Por muito que estremeça o ideário histórico incutido nas populações europeias desde a normalização carolingia, na Europa de hoje um "país" não corresponde necessariamente a uma "nação", pelo contrário, a maioria dos países europeus constituiram-se por amálgama de territórios conquistados, subordinados a um Estado centralizador que se impôs, unificando nações diferenciadas.

1. Filosofia e Conhecimento

Talvez os antigos gregos tivessem razão quando afirmavam que existia uma erudição própria escondida em cada palavra.

Se prestarmos atenção ao vocábulo "filósofo" ("philo sophos" em grego), um termo que surge, segundo Ponticus Heraclides (séc. IVº EP), quando Pitágoras recusa a denominação de "sophos" ("sábio") que lhe é atribuida pelo rei de Phlionte (cidade do Peloponeso) e retorquiu afirmando que mais não se considera além de "philo sophos" ("amigo da sabedoria").
Do adjectivo "filósofo", forma-se o substantivo "filosofia" ("philo + sophia"), "amizade pela sabedoria", que reflecte um encaminhamento em direcção à "sabedoria" e se opõe à noção de "possuidor de sabedoria" ("sophos").
A erudição do termo é bem patente no seu significado de "busca" da sabedoria, e de "recusa" (por impossibilidade) de a possuir !

Mas, invariavelmente, o valor erudito das palavras é fagocitado pelo utilitarismo com que se pretende aplica-las, e os vocábulos "filosofia" e "filósofo" sofreram o "habitual" tratamento de aculturação predominante.
No presente, particulariza-se como "filosofia de …" qualquer actuação teorizante nos mais diversos campos específicos, da gramática à política como da arte à lógica. Amarfanha-se, amalgama-se, oprime-se o sentido de "filosofia" com o significado de disciplinas outrora pertencentes ao "corpus philosophicus", mas que se disjuntaram constituindo áreas de estudo especifico.

Com efeito, o "pensamento" grego via na filosofia a "sabedoria", a totalidade do saber da época e um conhecimento aspirando ao universal !
Posteriormente, o "saber" foi-se compartimentando em "saberes" (ciências) enquanto o conhecimento se afirmava como compreensão dos limites e das condições da existência.
Compete pois ao ciêntifico o "saber" que permite o controlo da Natureza, e ao filósofo o "conhecimento" de uma vida acorde com a Natureza !

Se nos restringirmos ao espaço político, referir "filosofia do fascismo", "filosofia do marxismo", "filosofia do liberalismo", etc, não é culturalmente aceitável, pois que fascismo, marxismo, liberalismo, etc, são teorizações de um mesmo conceito filosófico que é a "Política", um conceito que provém de "Politeia" (da raiz grega "pólis", cidade ; em latim "civitas").
A origem do erro reside na assimilação habitual de "política" à "gestão da pólis", confundindo-se o conceito filosófico de "política" com as teorizações que propõem "gestões políticas" diversas.

Para bem compreendermos os âmbitos de acção do "conceptual filosófico" e da "teorização política", devemos ter presente as três realidades sobrepostas que a noção de "polis" engloba :
- um factor social, entendido como uma comunidade autónoma, habitualmente constituida por sinoecismo, fortemente estruturada, étnica e culturalmente coesa.
nota : na Antiguidade, o sinoecismo (do grego "sunoikismós", dérivado de "sún", com, e "oikos", casa, ou seja "conjunto de casas") é o acto fundador de uma cidade. Uma reunião de várias aldeias formavam uma vila… uma cidade…
- um espaço, que conecta o "habitat" a um território e ao seu ecosistema.
- um Estado, dotado de poderes de regulação sobre o "espaço" e o "factor social".

Assim que, se o "factor social" e o "espaço" determinam a "Nação" (conceito filosófico), as regras de Estado são do âmbito da teorização política, embora com uma excepção qualitativa relacionada com o substracto cultural das comunidades que constituem o "factor social" da "Nação".
E esse substracto cultural constitui o que os gregos denominavam "agraphoi nomoi", comummente entendido como "leis não escritas" (costumes e tradições).
O que valoriza, na tradição ética grega, os "agraphoi nomoi", não é somente o facto de evitarem a imperfeição técnica das leis escritas ("nomoi"), mas a sua relatividade cultural.
A primeira lembrança que nos vem à memória refere-se ao famoso passo da tragédia de Sófocles, Antígona (450-59), onde desafiando as determinações de Creonte, rei de Tebas, Antígona presta honras fúnebres a Polinices, seu irmão, morto em combate com o seu também irmão, Eteocles.
A jovem princesa justifica seu acto alegando obediência às normas divinas, eternas e intocáveis, superiores, como valor imperativo, à proclamação do rei.

Na Esparta e na Atenas clássicas, muito diferentes na teorização política, o mais importante era o conceito filosófico de comunidade de homens livres (noção espartana de "homoioi") que o grego (heleno) orgulhosamente proclamava.

"Cada um, então, de acordo com sua vontade, pode fulgir... ou calar-se. Pode imaginar-se mais bela igualdade ?"
(palavras deTeseu ao arauto in "Suplicantes" de Eurípides - vv. 426-441)

Se Atenas adopta uma "politeia" teorizada na participação activa dos membros da comunidade ("politai") nos trabalhos do "Boule" (Conselho), do "Helieia" (Tribunal) e da "Ekklesía" (Assembleia), para Esparta a organização da vivência em comunidade dependia substancialmente dos costumes e do definido por alguns poucos princípios reguladores, os famosos ordenamentos ("rethra"), atribuídos a Licurgo (séc. IXº ou VIIIº EP).

Lucius Furius Philus, no diálogo "De Res Publica", escrito por Cicero, defende (Livro III - VIII a XI) a tese de que justiça é coisa social, e não natural, que como tal varia conforme o povo e varia num mesmo povo através do tempo. É o interesse que comanda os homens.

A essa posição, Cícero opõe, por intermédio de Lelius, a lei ética, o conceito filosófico que deve ser o fundamento do Estado :
"Existe uma lei verdadeira, é a recta razão, conforme com a natureza espalhada em todos os seres, sempre de acordo consigo própria, não sujeita a perecer, que nos chama imperiosamente a preencher a nossa função, nos interdiz a fraude e dela nos afasta. Jamais o homem honesto é surdo às suas ordens e proibições; estas não têm acção sobre o perverso.
Nesta lei, nenhuma emenda é permitida, não é lícito revogá-la totalmente ou em parte. Nem o Senado, nem o povo podem dispensar-nos de a ela obedecer (…). Esta lei não é uma em Atenas, outra em Roma, uma hoje, outra amanhã, é uma única e mesma lei que rege todas as nações em todos os tempos (…) quem não obedece a esta lei ignora-se a si mesmo, e, porque ignorou a natureza humana, sofrerá por isso mesmo o maior castigo …"
(Marcus Tullius Cicero (106-43 EP) in "De Res Publica", Livro III, XXII).

No plano doutrinário a filosofia posiciona-se entre o escrito e o não escrito, entre a lei e o costume, consciente de que, pela biologia intrínseca do cérebro humano, uma "hierarquia de domínio" vai estabelecer-se entre os individuos que constituem o "factor social" que constitui a "polis", e que compete à teorização política fundamentar a organização dessa "hierarquia de domínio" no interior da comunidade, da sociedade, ou da Nação, pois esta tenderá a controlar a repartição da totalidade dos recursos (bens e serviços).
Os factores culturais envolventes deverão constituir a linha de conduta que a acção filosófica tem por obrigação impor à teorização política.
.
continua para 2/4
.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Reconhecimento !


"Euro-Synergies" publica um artigo do "Prometheus"…

É para mim uma honra e um prazer anunciar que "Euro-Synergies"
( http://euro-synergies.hautetfort.com/theorie_politique/ )
publicou a 17 de Junho passado o nosso artigo
"Nacionalismo : Conceito, Teoria, Organização",
colocado neste blogue a 21 de Março deste mesmo ano.

Para relembrar, re-publicaremos o artigo em causa, desta vez em 4 partes, para facilitar a leitura (tal como nos foi solicitado).
.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Perspectiva (VI)



.
.
demagogia
como regime político
.
.
.
.
.
.

Paralelamente ao Congresso de Viena de 1814/1815, e porque o czar Nicolau I não aceitou o sub-reptício plano que visava a destruição da Europa como grande potência mundial, a "ordem financeira oculta" controlada pelos bancos da familia Rothschild, com o apoio das seitas dos Illuminati e da Maçonaria, divulgadas por toda a Europa pelos exércitos napoleónicos, decidiu actuar pela subversão activa (dita "revolucionária").
A subversão das instituições, ideologicamente fundamentada na "cartilha marxista", passava pela destruição das tradições, e consequentemente, da cultura europeia !
O "projecto para uma Nova Ordem Mundial" foi então faseado segundo um planificação baseada na mitologia judaica, uma ordenação cabalística assumida como dogma e imposta como "princípio".

A 1ª fase consistia na vingança, no "Purim" descrito no "livro de Esther" ("Meguilat Ester").
Iniciou-se com a guerra de 1914/18, acção prévia à denominada "revolução russa de 1917", reflectida no "genocídio" de milhões de habitantes do Império Russo, incluindo o massacre da familia do czar Nicolau II, em Ekaterinenburg, por ordem expressa de Leon Trotsky (de seu nome Lev Bronstein), directo colaborador de Lenine.

A 2ª fase é o "holocausto", que o povo eleito deve padecer, segundo a profecia exposta no "livro de Daniel".
É preparada desde o fim da guerra de 1914/18, impondo à Alemanha derrotada, a "Paz de Versalhes", um autêntico repto que os alemães iriam seguramente contrariar.
Assim, a guerra de 1939/45 foi provocada para que se cumprisse a profecia de Daniel, que refere 6 milhões de mortos (reais ou não) mas, como dogma profético... indiscutível.

A 3ª fase é o também profético regresso do "povo eleito" à "Terra Prometida" ("Eratz Israel"), toda uma encenação de que os palestinianos ainda hoje pagam as consequências e de que o extremismo islâmico retira dividendos.

A 4ª fase relaciona-se com a profecia da vinda do Messias ("Massiah") que unificará todos os povos "da Terra" sob o controlo do "povo eleito".
Não devemos ver na profecia do "Massiah" a figura de "um indivíduo", mas sim "um conceito"…
A unificação pelo "Massiah", é a globalização a que estamos submetidos, aos regimes "democráticos" que nos igualam na mediocridade cultural e na inépcia crítica, colocando-nos como servos voluntários aos pés de quem nos maneja.

A introdução da demagogia através da democracia, o regime mais adaptado a essa finalidade (facto já constatado por Platão e Aristóteles), visa exactamente a consecução desta 4ª fase.
A arte do totalitarismo é utilizar a verborreia e as falsas promessas, não o uso das baionetas, obviamente não eliminadas, mas reservadas para situações que o regime considere de ameaça à manutenção do seu poder.
O actual modelo de democracia não impede que se diga… obriga a dizer, pretende que sejamos "uma imagem do mundo", um reflexo do espectáculo mediático que nos contorna ! E, por uma espécie de "homeostasia social", se não exercemos vontade própria, vamos desenvolvendo processos de adaptação que gradualmente nos transformam em "servos voluntários" de acções que "a priori" não aceitariamos.

"Ubi dubium ibi libertas"
(onde há dúvida, aí há liberdade)

Já na Antiguidade Clássica a demagogia era incutida através dos sofistas, possuidores da facilidade de palavra e redutáveis manobradores da arte do raciocínio.
Para atingir o seu objectivo, que era convencer, não hesitavam em explorar a inexperiência e a credulidade das "gentes" através da demagogia, da argumentação incorrecta e do raciocínio falacioso…

Se uma teoria política não é exigente nos seus propósitos, se não é culturalmente rigorosa, reduz-se a um simples rastejar através da mediocridade !

Não nos deixemos envolver por uma qualquer teoria que pretende impor um determinismo, um destino ("fatum") que apenas nos resta cumprir.
Quem nos pretende induzir a esse estado de "nirvana", engana-nos, falseando-nos o passado e impondo-nos um presente que nos levará a um futuro indesejável.
Devemos ter uma clara consciência da importância do passado como condicionante do presente e projecção no futuro !

"Aquele que esquece a História condena-se a repeti-la !", afirmava Jorge Santayana (1863-1952).

"Tendes coragem, oh meus irmãos ? Estais decididos ?
Não da coragem perante testemunhas, mas da coragem dos solitários,
da coragem das águias de que nenhum deus é espectador ?
Nietzsche in "Also sprach Zarathustra"
.
x

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Perspectiva (V)



.
.

sociedade
e politica
.
.
.
.

Uma comunidade prevalece enquanto nela se mantém a solidariedade entre os homens e as mulheres que a constituem, ou seja, enquanto não se manifestam forças centrifugas (desrespeito, desacato, egoismo, desmesura…) que naturalmente surgem sempre que o equilibrio demográfico se torna instável, sempre que o número de habitantes atinge um valor exagerado relativamente ao território ocupado pelo núcleo populacional, ou quando a percentagem de população alógena ultrapassa limites de razoabilidade.

Na Antiguidade grega procurava-se que no conjunto da "polis" os seus habitantes mantivessem activas as noções de harmonia, de equilíbrio e de justa medida, distribuidas pelos indispensáveis valores de coragem (andréia), temperança (sophrosýne), bondade (praótes), liberdade (eleutheriótes), verdade (alétheia), reserva (aidós), justa indignação (gémesis), amizade (philía), piedade (eusébeia) e disciplina (eutaxía).

O desequilíbrio era visto como uma ameaça à sobrevivência de todo o corpo cívico, de toda a "polis".
Ideologicamente, o bem comum suplantava o indivíduo, e uma desmedida (hýbris) poderia provocar uma contaminação (miasma) em toda a sociedade, desestruturando-a, pelo que somente a obediência ao recurso às leis ou aos ritos, poderiam promover a purificação (katharsis) e o retorno à ordem (eunomia).

A "polis" ("cidade-estado" grega), plural "poleis", era composta por um núcleo urbano ("asty") e um território adjacente ("khora") que implicava recursos de subsistência e uma homogeneidade étnica.
A "asty" é a parte da "polis" onde se agrupam os cultos civicos e as instâncias políticas, enquanto a "khora" é composta por pequenas povoações que se denominavam "Paralia" (se na zona costeira) ou "Mesogea" (se em zona do interior).

Este tipo de organização social, pequenos territórios agrupados à volta de um centro urbano, que caracterizou a Antiguidade grega, tem a sua origem em tempos mais recuados em KA.LAM ("o País"), denominação atribuida pelos sumérios ao território que habitavam entre os rios Tigre e Eufrates, e que os gregos baptizaram como "Mesopotâmia", terra no meio" ("meso") dos rios ("potamos").
Ur, Uruk, Lagash (cuja "asty" era Girsu), Umma, Eridu, eram "cidades-estado" do País de Sumer (em sumério KI.EN.GI), povo provavelmente originário do Cáucaso, limitado a sul pelo golfo pérsico e a norte pelo País de Akkad, Akkadu (em sumério KI.URI), habitado por povos semitas.
Como curiosidade, foram os acádicos que denominaram KI.URI como "Shu Me Ru", nome pelo qual ficaram conhecidos os seus habitantes (sumérios).

O permanente cuidado em não permitir um desajustado crescimento dos núcleos urbanos, vai manter o equilibrio comunitário no interior das "cidades-estado", assim como entre elas, durante dezenas de séculos !

Quando a Aristocracia das "poleis" gregas (principalmente Atenas) opta pelo desenvolvimento do comércio como fonte de riqueza, uma das imediatas necessidades foi o aumento demográfico : mais gente, mais "clientes", mais negócio… a crematística tinha nascido !

Desenvolve-se o processo de "sinecismo" (do gr. "sunoikismós", derivado de "sún", com, e "oĩkos", casa, ou seja, "comunidade de casas") pelo qual povoações isoladas se juntam a uma mais importante, ou o fazem entre elas, dando nascimento a novas "cidade-estado".

Pela ausência de controlo demográfico, as comunidades foram crescendo, as necessidades de habitação e alimentação aumentaram e foi-se instalando um grupo social que considerou necessário instituir regras de convivência (obviamente para "bem de todos"), afirmando-se como "classe governante profissionalizada", colocando a "velha classe aristocrática" numa redoma onde podiam contar e recontar as riquezas acumuladas…

Antes de que a finalidade fosse acumular riqueza, as primeiras comunidades eram governadas na verdadeira acepção do termo "governar", ou seja, "pilotar", "dirigir para", conduzir o conjunto da comunidade com uma finalidade que não se esgota no acto de dirigir, mas visa um objectivo claramente definido com antelação.
Mais tarde, quando os governantes assumem que o seu objectivo não coincinde com a finalidade geral, manifesta-se uma ruptura entre governantes e governados, que passam a ser "dirigidos", antes de mais, para a consecução de propósitos próprios de manutenção do poder. Os governantes avocam o direito de comandar, de reger os destinos da comunidade segundo conceitos por eles determinados e passam a actuar com o critério de "dirigentes".

Tinha nascido a "política" (e os políticos) que rapidamente converteram o principio solidário da comunidade em sistema societário competitivo, e lançaram-se em conquistas e em tratos mercantis com a prioritária finalidade de enriquecimento próprio.
Nesses "jogos" de guerra e mercado, as comunidades (convertidas em sociedades) passaram a ser a causa e a consequência das decisões tomadas pela associação dos poderes politico e religioso, "do sabre e do hissope" ("le sabre et le goupillon").

Ao governo colegial "aristocrático" (do gr. "aristos", os melhores) impõe-se a noção de "monarquia" (do gr. "monos", único + "archein", poder), que implanta o regime "monárquico" (do gr. "monarkhikos"), o poder centrado numa só pessoa, que se faz rodear de individuos de confiança, a "nobreza", que tal como o "monarca" (em lat. "rex") adquire direito sucessório.

O "rex", como "chefe de Estado", dirigia directamente a nobreza e, através dela, a generalidade das instituições e da população (em lat. "res publica" - "coisa pública").

A perda do direito sucessório, convertendo o "rex" em "presidente", e a eliminação do poder da "nobreza" em favor de uma classe profissional de politicos", é a diferença fundamental entre os regimes politicos monárquico e republicano, apesar de que, no presente, a instituição monárquica, para sobreviver, aceita compartir a direcção do Estado com formas republicanas de governo que, na prática, detêm o verdadeiro poder politico.
Para as populações, o problema continua a residir em que o "rex" ou o "presidente", apoiados por uma nobreza ou por grupos oligárquicos, mantêm como finalidade primeira o enriquecimento próprio e, por razões de sobrevivência como poder, vão distribuindo "panem et circenses" !

continua

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Perspectiva (IV)


. .
.
.
linguagem
como convenção
.
.
.
.


Para Noam Chomsky (1928- ), professor de linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), a linguagem está "pré-organizada" na estrutura neuronal do cérebro (cortex cerebral) na qual o "envoltório social" formatea uma linguagem particular.
Assim, todas os idiomas partilham um conjunto limitado de princípios de organização baseado num projecto prévio inerente ao cérebro humano e transmitido geneticamente sob a forma de gramática universal ou plano linguístico para construir a linguagem, razão pela qual as crianças aprendem a falar aproximadamente à mesma idade (5 anos).

Aprender a falar significa dominar um conjunto particular de regras que permitem organizar a linguagem.

A linguagem humana é tão diferente de qualquer outra coisa do reino animal que ele não é entendível como poderia ter-se desenvolvido a partir de gritos ou gestos ancestrais, quando é perfeitamente concebível como efeito emergente das nossas capacidades cognitivas.

Numa sociedade que se inventa em cada instante, o homem permanentemente passa do que sabe ao que ignora, pelo que (por necessidade) deve aprender, innovar, e para concretizar essa finalidade intrínseca necessita de uma ferramenta adequada, recorrendo para isso ás qualidades especificas da linguagem humana.

Apesar da mediocre estima que o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) tinha sobre o "homem falante" ("Homo loquax"), "de que o pensamento, quando pensa, não é mais que um reflexão sobre a palavra", a realidade não nos parece tão redutora, e o pensamento pode (deve) estar na origem da palavra.

A linguagem, como diálogo, como discussão critica, está intimamente relacionada com a faculdade que tem o humano de pensar racionalmente.

O triunfo do "Homo loquax" sobre o "Homo faber", é o da "poiesis" sobre a "praxis", da criação sobre a fabricação.

Para o linguista suisso Ferdinand de Saussure (1857-1913), considerado o fundador da linguistica moderna, "a linguagem é uma forma, não uma substância".
Este simples principio, quase diriamos "esta constatação", é tremendamente importante para a compreensão do módulo "linguagem-pensamento".

Insistindo que uma "lingua" é um sistema do qual todas as partes podem e devem ser consideradas num contexto de solidariedade síncrona, sem o qual não existiria "esse" conjunto linguistico, a "lingua" em causa.

Para Saussure, o "sinal linguistico" (que vulgarmente designamos como "palavra") é composto de duas faces, como as duas faces de uma moeda :
* o significante, ou "forma fónica" (o som) da palavra ;
* o significado, ou "imagem" ("conceito") da palavra.

Assim, o "sinal linguistico" "gato" é composto pelo som produzido pela articulação fónica do termo ("significante") e pelo conceito ("significado") que lhe atribuimos (pequeno animal, coberto de pelos, de grandes bigodes, que mia …).
Da mesma palavra, "significante" e "significado" são inseparáveis, não existe um sem o outro.

"A linguagem é uma convenção..."

Quanto ao poder da linguagem, aqui deixamos este testemunho de "Gorgias", extraido do diálogo homónimo escrito por Platão :

"Refiro-me ao poder de, por seus discursos, persuadir os juizes do tribunal, os senadores no Concelho, os cidadãos na assembleia do povo e em qualquer outra reunião de cidadãos.
Com esse poder, farás escravo o teu médico, teu escravo o mestre de ginástica e, quanto ao famoso financeiro, todos reconhecerão que não é para ele que amontoa dinheiro, mas para outro, para ti que sabes falar e persuadir as multidões."
Platão, Gorgias, ed. GF, 451d-452

Daí o discurso incessante dos politicos, difundido à saciedade pelos ventiladores mediáticos do "Sistema", pretendendo impor um processo de raciocinio crédulo através de uma retórica demagógica fundamentada na aculturação ambiente.

continua

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Perspectiva (III)



.
.
.
pensamento
e linguagem…
.
.
.
.


A elaboração de mitos, cultos, doutrinas religiosas e conceitos filosóficos são o preço que o Homem paga para sobreviver como ser racional sem se subordinar a um puro automatismo. As explicações destinadas a fundamentar as ideias, os conceitos e os principios, não são mais que ontogenias desenvolvidas como apaziguadores da angústia inerente à vivência.

Inatalado nos seus instintos de conservação, procriação e gregarismo, pretendendo satisfazer a curiosidade sobre o que o rodeava, das árvores aos animais, dos fenómenos atmosféricos ao movimento incessante da Lua e do Sol sobre as suas cabeças, da água que brotava das rochas, que fluia nos rios e que ondeava no mar, o "raciocínio crédulo" do "sapiens" inferiu a existência de energias conscientes que tudo controlavam.
Curiosidade satisfeita, a superstição impôs-se e não tardaram a surgir os "ventríloquos" das divindades, uns auto-denominados representantes das ditas, hierofantes, pitonisos e magos, classificados como sacerdotes, cada um com o seu próprio receituário e todos impondo o culto ou a doutrina que dizem representar, obviamente (cada uma delas) a única e verdadeira !

O surgimento desses condutores do povo (em gr. "demagogos") é o reflexo de um potencial neuronal, um factor de vital importância que vai magnificar o desenvolvimento da Humanidade : a linguagem !

No humano, a linguagem é inteligência, é capacidade de abstração e de criação.

Se a consciência nos permite a auto-localização no espaço-tempo, o reconhecimento ontológico, a linguagem desenvolve em nós a potencialidade da comunicação simbólica com o exterior através da estruturação do pensamento.

"A linguagem é a casa do Ser", diz-nos Martin Heidegger (1889-1976).

Entre os mamíferos, a linguagem consiste essencialmente na manifestação de emoções, com excepção da linguagem humana que possui a capacidade de veicular símbolos, ideias e noções abstractas, capacidade com base genética, mas que resulta essencialmente da aprendizagem no meio social, da familia à escola, e daí aos núcleos societários mais diversos.

A verdadeira diferença entre a linguagem humana e a animal é a prodigiosa complexidade da primeira.
Complexidade fisiológica que permite, a partir de algumas dezenas de sons fundamentais (produzidos na laringe, um órgão constituído por cartilagens e músculos, alguns dos quais formam as cordas vocais, suspensas do osso hióide), transmitidos com o o ar expirado para a faringe e depois para a cavidade nasal e boca que (graças aos movimentos da língua, véu palatino e lábios), permite a diferenciação dos sons emitidos com uma certa frequência e intensidade, originando os fonemas.

Complexidade psicilógica que permite articular uma linguagem não somente como um processo fisico-mecânico, mas sim algo de bastante mais subtil que necessita de uma intervenção especializada do cérebro, mais concretamente de certas áreas corticais (cortex).

Robin Dunbar, antropólogo e biólogo britânico, desenvolveu o "número de Dunbar" (também conhecido como "Monkeysphere") um conceito com significado sociológico e antropológico que pretende medir os limites cognitivos do número de individuos com os quais uma pessoa pode manter um relacionamento social duradouro. Dunbar teoriza que esse limite tem relação directa com o tamanho do neocortex que limita, pela sua capacidade de processamento, o número de individuos com quem podemos manter uma relação inter-pessoal estável.
O cérebro humano não teria capacidade para manter mais de 150 conexões sociais activas em simultâneo.

Para Derek Bickerton (1926- ), professor na Universidade de Hawai, a "protolinguagem", associando vocábulos, sinais e mimicas, teria passado por fases "pidgin" (língua veicular) a partir da qual se foram construindo as linguagens actuais. Os modelos mentais teriam origem a partir de faculdades primitivas de comunicação e foram evoluindo em paralelo com essas faculdades.

A co-evolução de cérebro e linguagem é também a tese de Terence Deacon, do Departmento de Antropologia da Universidade da Califórnia (Berkeley), segundo a qual a estrutura da linguagem se teria desenvolvido ao longo de um longo processo durante o qual o cérebro e diferentes aspectos da linguagem exerceram "pressões de selecção" uns sobre os outros.
As primeiras formas de pensamento simbólico terão originado um "meio cultural" ao qual o cérebro teve que adaptar-se. E vice-versa !
Terence Deacon sublinha a particularidade do "Homo sapiens" como "espécie simbólica", na acepção de "símbolo" (do gr. "sýmbolon", sinal de reconhecimento) como relação genérica de sentido intencional, ou seja, construida desde um modelo mental da realidade.


continua

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Perspectiva (II)


.
.

pensamento
e raciocínio…

.
.
.
.

O "Homo erectus" (seguimos a taxionomia de Von Liné), foi uma "produção" que vingou, assim como outras não sobreviveram (e.g. "Homo neanderthalensis"…), e a grande incógnita reside no facto da racionalização das suas funções cerebrais que o transformou em "Homo sapiens" !
Tenhamos presente que existem vestigios na Tailândia do "Homo erectus" datados com cerca de 20 milhões de anos… o que demonstraria (se necessário fosse) que o "berço africano", anunciado pelo "Out-of-Africa", é uma teoria política, não uma teoria ciêntifica !

A grande interrogação que se nos depara concirna o "como e porquê" um cérebro existente há milhões de anos, num relativamente curto periodo, permite ao "lascador de pedras" inventar ferramentas decisivas como o arado e o martelo (ainda hoje utilizados), domesticar animais, tornar-se agricultor, desenvolver uma linguagem e uma escrita e conceber abstracções…
Dizem os sumérios, através de um dos mais antigos textos cuneiformes conhecidos ("Enuma Elish…") que foi obra dos "deuses", uns seres vindos do espaço que alteraram geneticamente um ser elementar ("Homo erectus" ?) obtendo um "ser racional" capaz de lhes servir em determinados objectivos de exploração terrestre.
A partir dos textos sumérios desenvolveram-se diversos conceitos de transcendência divina, cada vez mais distantes do propósito sumério, que estão na origem do judaísmo e seus derivados (cristianismo e islamismo).
Mas, o judaísmo não foi a única interpretação dos testos sumérios, e o "dilúvio", relatado nas peripécias do rei Gilgamesh de Uruk (cidade suméria), aparece igualmente citado nas mais diversas versões desde o Extremo-Oriente às Américas.
A versão original suméria atribui a Ziusudra a façanha que a Tanakh (livro sagrado do judaísmo) imputa a Noé (como obviamente o fazem a Biblia e o Corão)
Não obstante, o "dilúvio", destinado a exterminar o "sapiens" de quem os "deuses" (abandonando a Terra) já podem prescindir, não resultou como pretendido e a espécie humana (com diversas variantes - raças) sobreviveu e foi desenvolvendo os seus processos de raciocinio, agora não dependentes de um qualquer controlo ou manipulação dos "mestres" ("deuses").

O "Homo sapiens", para uns o Adamu acádico (Adam em hebreu), feito de argila e activado por um sopro divino, para outros, um descendente de macacóides africanos, e ainda para outros, fruto de uma experiência genética levada a efeito por extra-terrestres…
Realidade, fantasia, crença… Se o "sopro divino" nos coloca a nivel da metáfora, da parábola e da crença, a origem macacóide transporta-nos para a ficção politico-ciêntifica, para a época em que a maçónica Royal Society of London, da qual Darwin era "felow", pretendia encontrar uma "teoria ciêntifica" com que combater o "criacionismo" defendido pelo cristianismo.
A intervenção alógena não será certamente a única alternativa às duas anteriores, mas é uma alternativa !
Não uma alternativa folclórica, mas proveniente da cultura e civilização suméria, não indo-europeia nem semita, chegada (sem origem conhecida) à Mesopotâmia, entre povos nómadas, há cerca de 6000 anos, e possuidora de conhecimentos de matemática (sistema sexagesimal), de astronomia (conheciam os principais planetas do sistema Solar), técnicas de construção (o "zigurat" de "Etemenanki" atingia cerca de 90 metros de altura por 90 metros de base quadrada), organização social, etc, que surpreendem especialistas como o historiador russo Zecharia Sitchin (1922-), talvez quem melhor conhece a Suméria, o antropólogo Joseph Campbell (1904-1987), autor de "The Masks of God", Pierre Amiet, orientalista e conservador do departamento de "Antiguidades Orientais" do museu do Louvre, o arqueólogo Prof. Henri Frankfort (1897-1954) autor de "Ancient Egyptian Religion", etc…

Os processos de raciocinio do "ser humano" ("Homo sapiens") evoluiram primeiramente como "raciocínio crédulo", supersticioso e temeroso (o que melhor se presta à manipulação), progressivamente demonstrando curiosidade pelo desconhecido, curiosidade que gradualmente, e de forma selectiva, foi evoluindo lentamente para formas de dúvida que exigiam explicações complexas ; o "raciocínio critico" afirmava-se !
Paralelamente, na vivência comunitária, o "ser humano" mantinha intacta a sua tendência instintiva de sobrevivência e reprodução, que manifestava através do egoismo, da violência e da busca do prazer.
Hedonista, crédulo, por vezes curioso, mas sempre "Homem lobo do Homem" ("Homo homini lupus", locução de Titus Maccius Plautus : 254-184 EP) !

Se o "raciocínio crédulo" fundamenta as crenças, a transcendente desde a interpretação judaica das revelações sumério-babilónicas ou a imanente desde as mitologias europeias, indo-europeias e ameríndias, o "raciocínio critico" (muito posterior) é inerente a uma tentativa de interpretação racional da cosmogonia mitológica, um intento que permite transpor o razoamento da simples e passiva curiosidade à formulação activa da dúvida.
Não obstante Carolus Linnaeus (Carl von Liné : 1707-1778). ter brindado a nossa espécie com a denominação de "sapiens", essa circunstância não faz de nós "sophos" ("sábios"), e tão somente, pela aplicação do "raciocínio critico", uns humildes "amigos do saber" ("philos sophos").

Para Dylan Evans da Universidade de West of England (Bristol) as decisões, todas as decisões, são emocionais, pois, na consecução de um raciocinio, a decisão é sempre emocional.
"A presença das emoções é bipolar : estão no inicio e no fim de todos os projectos humanos", como afirma Eduardo Punset in "El viaje a la Felicidad - Las nuevas claves científicas" (2005).

continua

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Perspectiva (I)



.
.
.

o passado
como fundamento
.
.
.
.
.


Talvez seja mais correcto denominar "Multiverso" ao que habitualmente significamos como "Universo", pois cada vez mais a "física teórica" nos aproxima do conceito de "outros Universos" o que é um contra-senso, pois Universo define-se como a totalidade de tudo o que existe.
No âmbito politico, Carl Schmitt (1888-1985) utiliza o vocábulo "Pluriversum" !

Segundo a "teoria das cordas" ("física teórica") as particulas elementares não são "pontos", mas sim "filamentos vibratórios", em forma de pequenas "cordas" cujas extremidades se comportam como particulas.
Uma dessas "particulas teóricas" ("dilaton") estaria na origem de pequenas borbulhas ("pré-big bang") que ao atingir o tamanho de um "proton" entrariam em fase de expansão acelerada ("inflação").
O "big bang" não seria pois um acontecimento inicial, mas a manifestação de um Universo entre outros que se originariam pelo mesmo processo.
Assim, o conjunto seria um super-Universo, ou um Multiverso contendo Universos com as suas próprias leis físicas, o seu próprio tempo e as suas próprias dimensões.

Provavelmente, o modelo de evolução do "nosso Universo", é uma pulsação rítmica entre uma expansão ("big bang) e uma contracção ("big crush")… a que se seguirá outra expansão e outra contracção… e outra… e outra…
Como dizia o francês Antoine Lavoisier (1743-1794) :
"nada se perde, nada se cria…tudo se transforma" !
Tenhamos presente que Lavoisier foi condenado à morte pelo "tribunal revolucionário", da maçónica "revolução de 1789", e executado na guilhotina.
O excelso democrata, Jean-Baptiste Coffinhal, presidente do citado "tribunal", proclamou :
"A República não tem necessidade de sábios nem de quimicos" !

Diz-nos a observação, a experimentação e a teoria que o "nosso Universo" é um composto energético de 5% de matéria visível, 25% de matéria negra e 70% de energia negra ou energia do vazio ("vacuum energy").
E são esses 5% de matéria visível que incluem a matéria inorgánica (a imensa maioria) e residualmente as moléculas de matéria orgânica compostas por um "esqueleto" carbonatado e grupos funcionais característicos de funções químicas (alcool, acido, amina…).
Para que a vida se manifeste é necessário que determinados componentes orgânicos constituam moléculas pré-bióticas, sintetizem e se reproduzam, seguindo um intrincado processo de "acaso e necessidade" que vai gerando sistemas e orgãos que, em condições externas apropriadas, se vão organizando como num "quebra-cabeças", milhões de milhões de hipóteses para conseguir algo de mais complexo e estável.

Afirmava o heleno Demócrito de Abdera (460-370 EP - Era Precedente) que "tudo o que existe no Universo é fruto do acaso e da necessidade" !
O "acaso" fará que do choque casual de particulas energéticas se estabeleçam novos enlaces atómicos que, por "necessidade" de estabilidade fisico-quimica, ocasionarão novas estruturas, e assim sucessivamente até que um equilibrio se manifeste. Os enlaces conseguidos repetir-se-ão sempre que as mesmas condições se verifiquem, tanto a nivel atómico como molecular.
Este principio foi defendido, entre muitos outros ciêntificos, pelo bioquimico Prof. Jacques Monod (1910-1976), prémio Nobel da Medicina (1965), no seu trabalho "Le hasard et la nécessité", publicado em 1970.

É verosímel que, durante os milhões de anos que o planeta Terra tardou em consolidar-se, certas "combinações" pré-bóticas tenham sido até ela transportadas por meteoritos. Nas condições ambientais encontradas o processo de "acaso e necessidade" foi tornando factível a eclosão de seres vivos diferenciados que, por adaptação foram constituindo bio-sistemas de sobrevivência.
Notemos que essas "adaptações" nada têm a ver com as fantasmagóricas hipóteses de Darwin com um pássaro a nascer de um ovo de dinossauro, ou de um humano a descender de um simio.
As "linhas de produção" do "acaso e necessidade", ou falharam no seu "projecto" ou deram lugar a seres que, adaptados ao meio, são hoje o que fundamentalmente sempre foram.
Uma das propriedades fundamentais dos seres vivos é que são dotados de um projecto, o poder de produzir e de transmitir a informação correspondente à sua própria estrutura.

"Os seres vivos distinguem-se de todas as outras estruturas, de todos os outros sistemas existentes no Universo por esta propriedade que designaremos de "teleonomia"
(J. Monot in "Le hasard et la nécessité").

Assim, a Natureza transforma-se e evolui, primeiro pelo "acaso" de acções e reacções, e depois pela "necessidade" de assegurar a funcionalidade encontrada. Essas funcionalidades converter-se-ão em projectos teleonómicos que serão parte de outro projecto mais complexo, como e.g., a visão ou o olfacto que são projectos secundários de um projecto mais amplo e complexo constituido pela estruturação do animal que deles beneficiará.
Realizando projectos subalternos e complementares, a Natureza vai, progressivamente, criando todas as estruturas, todas as funções e todas as actividades necessárias à consecução de um projecto essencial, e nessa actividade, perante uma alternativa, seleccionará sempre a via menos custosa em dispêndio de energia.
Recordemos a teoria de Pierre Maupertuis, as Leis da Termodinámica ou o aproveitamento energético da "respiração celular" !

"A noção de teleonomia implica a ideia de uma actividade "orientada", "coerente" e "construtiva".
Segundo estes critérios, as proteínas devem ser consideradas como os agentes moleculares essenciais das funções teleonómicas dos seres vivos"
.
(J. Monot in "Le hasard et la nécessité")

continua

sábado, 22 de setembro de 2007

Por um mundo melhor !



.
.


objectivo e… finalidade
.
.
.
.


Neste inicio do século XXI a totalidade dos países dos cinco continentes está sob controlo de um "sistema politico oligárquico" que, dominando os meios financeiros mundiais, se impõe através de "regimes políticos" ideologicamente denominados "democratas", que difundem a sua omnipresença através de um modelo de vigilância em que o "ser humano", psicologicamente manipulado, aceita participar envolvendo-se numa ilusão de "progresso" e num "espartilho legislativo" para sua hipotética segurança.

Esse envolvimento é o resultado do "controlo", que os regimes políticos aplicam, com o objectivo de inserir cada "ser humano" no fluxo de informações que servirá de ferramenta aos programadores sociais, encarregues de manter a população entretenida e alimentada (o "panem et circenses" de Juvenal), e simultâneamente distanciada dos verdadeiros problemas de cada comunidade, tratados com displicência e desaforo pelos profissionais da política, componentes de organizações (partidos políticos) dirigidas por títeres do citado "sistema politico oligárquico".

O objectivo, a determinação final desse processo de "condução" (de "controlo") é dirigida pelos demagogos (gr. "demagogos", de "demos", povo + "agogos", condução, de "agein", conduzir), os "condutores do povo", e visa a manutenção do "poder politico" ("chefia do Estado") para enriquecimento de quem o detém !

Como já explicitamente argumentamos no "Sistema oligárquico e Regime democrático" ("Prometheus" de Junho/Julho 2007) o fundamento actual da denominada democracia é romper o equilibrio psíquico do "ser humano", através da dissociação da familia, da promoção de perversidades como a droga ou a homosexualidade, e do rebaixamento cultural através de um ensino reduzido a especializações orientadas à inclusão dos individuos num sistema profissional alienante. E aí sobressai o carácter demagógico dos actos políticos, conscientemente orientado à degradação ética e a um superlativo hedonista.
Os demagogos exaltam o "igualitarismo", o "processo eleitoral", a "liberdade de expressão", e o exausto "leitmotiv" do "Estado de Direito", como se não verificassemos diariamente a imensa falácia gerada a partir desses estribilhos.

Se analisarmos cada uma das exaltações proclamadas pela demagogia democrata (valha a tautologia), constataremos que :
- o igualitarismo é a afloramento do menor factor comum, um nivelamento pela mediocridade, uma concepção de justiça que nega o carácter subjectivo do valor ; a finalidade é evidente : é muito mais fácil dirigir uma multidão de mediocres, bovinamente aquiescentes, que enfrentar a exprobração de tribunos críticos e não demagogos.

- o processo eleitoral, o "nec plus ultra" da sua receita politica, é uma pretensa "livre escolha" que, objectivamente, está subordinada à selecção prévia de candidatos efectuada pelo regime e propagandeada pelos meios de informação, controlados pelo "poder financeiro" intimamente aliado ao "poder politico".

- a liberdade de expressão (a não confundir com "libertinagem verborreica", essa sim beneficiária de "ampla condescendência") está condicionada à "censura interna" dos meios de informação e de publicação, ademais de que a utilização dos mesmos não está ao alcance do comum dos mortais ; a utilização da "internet", sujeita a penalizações se demasiado contundente com os dogmas da "democracia", é um meio restrito que somente atinge uma minoria da população e, se trata de aprofundar temas para reflexão política (como o caso vertente), somente desperta a atenção de uma dúzia de "iniciados" (sendo optimista).

- o estafado tema do "Estado de Direito" é periodicamente lançado pelos ventiladores da "excelência jurídica" do "regime democrático", como se a legislação não fosse elaborada segundo os preceitos do próprio regime, e urdida pelos que o constituem ; alguns aduzirão que o argumento é pleonástico pois, como em qualquer outro regime, quem elabora as leis são sempre os que detêm o "poder politico", o que é indubitavelmente assertório, mas conduz a uma reflexão : se é um processo idêntico ao de outros regimes porque cacarejam os democratas essa obviedade ? Pura demagogia, sem dúvida !

Sem pretender teorizar sobre a actuação política directa, mantendo-nos na perspectiva metapolitica, consideramos que na conciliação de um "sistema politico" liberto de poderes financeiros sectários com um "regime politico" orientado ao florescimento cultural do indivíduo no seio de uma comunidade solidária, seria perfeitamente aceitável o "processo eleitoral" como arbitragem de propostas políticas, na exclusão absoluta de participação de qualquer tipo de "organização política partidária", e indubitavelmente promovida a liberdade de expressão e a consciencialização cultural, acompanhada por um ensino fundamentado no desenvolvimento do raciocinio critico.

Determinando-se a política pela estruturação e manutenção funcional de um grupo humano, consideramos dever actuar prioritariamente sobre o indivíduo mostrando-lhe os nefandos efeitos da promoção da mediocridade em forma de "igualitarismo", um estratagema já recorrido pelo cristianismo quando lutava pelo desmantelamento do Império de Roma e que ficou incubado na cultura europeia como uma espécie de matriz moral (religiosa que não ética).
A consequente proposta alternativa seria destinada a cultivar o valor da diferença, da alteridade no respeito de cada indivíduo no contexto de uma subsidiariedade envolvente à comunidade.
Deveriamos tornar sensivel a absoluta necessidade de uma legislação acorde com a finalidade de salvaguardar o equilibrio do "ser humano" no seio da familia e no seu relacionamento com a comunidade.

Em simultaneidade com os citados "principios", vigoraria o propósito de promover o "ser" antes que o "ter", considerando a economia como meio e não como objectivo, com total repúdio pela "usura" e pelo sacificio do "meio-ambiente" para promover processos industriais equivocados..

Somos decididamente favoráveis a uma comunidade onde seja natural a integração e a vivência do Homem, com o consequente afastamento de qualquer projecto de sociedade que pretenda impor procedimentos alienantes de comportamento (como na actualidade) com o único e preverso objectivo de fazer do "ser humano" um idiota consumidor, um ignaro cultural, um bastardo miscigenado e um produtor de riqueza em beneficio da "oligarquia" no poder.

Alcançaremos algum dia essa finalidade ?
Será que o raciocinio critico e a cultura poderão vencer a credulidade e o "panem et circenses" da "massa amorfa" que fundamenta a democracia ?
Não será simples pertinácia e renitência nossa considerar que algum dia o nosso vizinho deixará de ir gritar ao futebol para ler um livro ?

"Somente o sucesso demonstra que a tenacidade não é obstinação"
Jean Rostand (1894-1977) in "Aux Frontières du surhumain" - 1962

domingo, 16 de setembro de 2007

Mensagem !


.
.
acção política
desde a "sociedade civil"

.
.
.
Temos repetido que "Cultura é Poder", que é a compreensão filosófica da vivência em que estamos imersos e a alavanca que nos poderá catapultar para possíveis situações de renascimento politico.
Se analisarmos os vários componentes da sociedade em que estamos imersos, constataremos que a "acção política desde as instituições politicas" está sob controlo dos funcionários políticos que nos impõem um cenário ideológico redutor e intolerante, em que os "partidos políticos" actuam como desmotivadores de qualquer reflexão critica.

Pretender actuar desde a "jaula política" em que nos encerraram é uma obviedade quimérica, é dar voltas (como o "hamster") sem nada avançar.

Devemos concretizar a "acção política desde a sociedade civil", em debate frontal contra a manipulação do ensino e da informação, contra os actos de subordinação da oligarquia local perante os cripto-poderes mundialistas, contra o suborno e a corrupção, contra a inépcia e a incompetência, tendo presente que os "partidos políticos" são o verso multifacetado da moeda cuja face é o Estado…

Um cripto-poder, constituido pelos mais poderosos meios financeiros mundiais, decidiu converter o planeta numa propriedade privada e os seus habitantes em servos, em servos voluntários, como bem descreveu Etienne de La Boëtie (1530-1563), um estimado amigo de Montaigne, em "Discours de la servitude volontaire",
Com efeito, a servidão nem sempre é uma situação forçada (como a escravatura), nem uma imposição violenta, mas pode ser uma aceitação voluntária (embora por vezes "não-consciente") que conduz La Boëtie a colocar a pergunta : "porquê obedecemos ?".

Transposta a "servidão voluntária" à actualidade, obedecemos porque atribuimos ao "poder politico" um grau de legitimidade que ele não tem…
Esquecemos (ou não queremos lembrar) que os funcionários de um Estado ocupam essas funções porque são por nós mandatados para exercer as competências que lhes conferimos. Se têm poder é porque o povo lho confere !
É tempo de lhes fazermos entender que a função pela qual lhes pagamos não se reduz a férias em estâncias de luxo, deslocar-se em "limousines" e arvorar um ar de sobranceria e enfado.

São funcionários de um Estado pago com o dinheiro dos impostos de todos nós.
Para quando uma inquirição à fortuna acumulada por muitos "políticos" ?
Quanto custa ao povo português sustentar as reformas e pensões "douradas" de toda uma "fauna política" que algum dia se aproximou da mesa do orçamento ?

Não existe nenhum determinismo politico, e menos ainda histórico, que imponha o comportamento servil que diariamente observamos na sociedade que nos envolve, e para deixar de ser servo voluntário é suficiente agir em consequência, começando por exigir responsabilidades aos que aceitaram representar-nos no "pelouro politico".

Compreendamos que os políticos funcionam em circuito fechado "fabricando leis" que lhes permitem manter o poder, e com ele servir-se e a quem a ele lhes deu acesso.

Os funcionários do regime politico que suportamos, actuam como borboletas encandeadas, seguindo as normas de destruição identitária que lhe são ditadas pelo "cripto-poder", pelo "sistema politico global", sem se aperceberem que, como parasitas que são, desapareceram em simultâneo com o corpo parasitado.

Quanto a nós, "eleitores-pagadores de impostos", até quando continuaremos a avançar, como "lemmings", para o precipicio a que nos conduz a política suicidária dos funcionários a quem atribuimos poderes políticos ?

A deficiente educação, a promoção de vicios, a miscigenação que nos impõem, tudo coincide em transformar-nos em idiotas consumidores, em objectos de gozo, em formigas construtoras, para satisfação e desfrute de uma "corja política" e sua envolvente financeira !

É nosso convencimento de que, desde o "sistema politico", existe uma manipulação psicológica para que socialmente se imponha um comportamento generalizado de "servo voluntário", para o que colabora a imposição de cenários hedónicos de consumismo compulsivo, as modas de disfuncionalidade ética, os comportamentos sexuais aberrantes… A ignorância e a idiotia fazem o resto !

O desmantelamento do "regime politico" democrático (demagogo na forma e intolerante no conteúdo) somente poderá processar-se desde a "sociedade civil", pois a "jaula política" está bem aferrolhada e não permitirá nunca veleidades que o ponham em causa, mesmo que se façam eleições semanais ou mudança de governo cada 24 horas.

Se não compreendemos que o "regime democrático" é essencialmente demagogo, justificando-se na manutenção de uma corja política profissionalizada apoiada numa burguesia parola, numa massa de Gouvarinhos tão bem retratada pelo Eça… se não compreendemos a falácia que nos impõem, o "regime em funções" terá longa vida, e os funcionários da política muitas oportunidades de enriquecer à custa dos "eleitores-pagadores de impostos".

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Coerência etno-cultural

A Nação
na Europa dos Povos


Com a devida vénia, permito-me transcrever alguns parágrafos de um texto publicado pelo blogue "Radio Esparta" (http://radioesparta.blogspot.com) em espanhol (nossa tradução)...
--------------

"O contexto actual oferece-nos novas possibilidades de evidenciar a nossa identidade através da história, recuperando a sua vigência e actualidade como uma realidade viva; porém, para que assim seja, é indispensável uma completa revolução intelectual que organize a população em povo e o caos em cosmos, restaurando os principios imperecíveis da Tradição.
(…)
Uma vez esclarecida a definição vigente de nação, há que establecer a diferença desta com a identidade, entendida não como uma categoria histórica construida "ad hoc" pelo homem, senão como um conceito que se situa no plano das realidades vivas dos povos.
(…)
A identidade não é aquilo que define um povo, mas é esse povo em si, com tudo quanto o faz ser particular e diferente de qualquer outro, compreendendo os rasgos culturais, étnicos, religiosos, linguísticos, etc...
A identidade não se adquire, é uma herança do passado que projectando-se no futuro assume actualidade no presente."
(…)
"Radio Esparta" em 10 de Abril de 2007
-------------
comentário
Este texto vêm ao encontro do que aqui temos escrito.
Congratulo-me com a evidência de que, para chegar a uma Europa diferente daquela que nos impingem os "mercaderes" de Bruxelas, é fundamental partir do conceito de Nação como estrutura base do projecto.

Não é aceitável uma proposta de construção europeia sem a preocupação constante pelo conteúdo cultural dessa Europa !

Seremos tão ingénuos que vamos acreditar na possibilidade de edificar uma Europa diferente, partindo dos países e das populações que por aí continuam, credulamente vergadas pela manipulação do "sistema politico" ?

(…) "é indispensável uma completa revolução intelectual que organize a população em povo e o caos em cosmos, restaurando os principios imperecíveis da Tradição." (in "Radio Esparta")

"Numa civilização cada vez mais cosmopolita, sempre mais igualitária, e portanto mais anónima, é inevitável e mesmo desejável que se formem pontos de resistência local e que se espalhe pouco a pouco a ideia de uma Europa das Regiões." (in R.Herle "Éléments" 9-75).

É fundamental, para se alcançar uma Europa verdadeiramente europeia, e não um "ersatz" norte-americano ("o exemplo a evitar" por paradigma), que a cultura popular seja preservada.
Para isso, é imprescindível acções imediatas em defesa das unidades de coerência etno-cultural, das verdadeiras "nações", que em caso algum podem (ou devem) ser confundidas com as "nações-país" artificialmente criadas.

"A centralisação iniciada pela Monarquia, e continuada pela República, fez-se em prejuizo das regiões o que provocou o seu empobrecimento cultural e humano." (in R.Herle "Éléments" 9-75).

Um modelo para a Europa como o proposto em http://ofogodavontade.wordpress.com (03 Maio 2007):
"… modelo confederal e descentralizado assente em principios de subsidiariedade e num pilar identitário de defesa e preservação dos povos ou comunidades tradicionais da Europa…"
é, na nossa perspectiva, perfeitamente aceitável, diria mesmo desejável sempre que fundamentado nas unidades de coerência etno-cultural existentes no interior de cada País.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Sistema Oligárquico e Regime Democrático ( VI )


.

Comunidade
vs.
Estado…
.

É a teorização da política como acto de Estado que provoca a institucionalização da luta pelo controlo desse mesmo Estado.
Para Maquiavel (Niccolò Machiavelli 1469-1527), fazendo abstracção da motivação de certos intervenientes, a acção política reduz-se à luta pela conquista do poder, o que traduzia já uma realidade política que se tem acentuado.
Porém, como vimos, a política "não é", por definição, um sinónimo de luta pelo poder, mas sim o conjunto dos actos de governabilidade, um conjunto de medidas sociais dirigidas a diversas finalidades e aplicadas com um certo grau de coercitividade (um dos critérios do "facto social" segundo Durkheim).

A luta pelo poder inicia-se quando poder politico e aquisição de riqueza se complementam.
Na Antiguidade, a aristocracia (de "aristos", os melhores) fundamentava-se numa noção de honra ("timé") que impedia a "hubris" (ou "hybris"), a desmesura e o consequente enriquecimento excesivo.

Com o desenvolvimento do comércio, por contactos com os povos semitas do Médio-Oriente (principalmente fenícios), as classes menos cultas, e consequentemente menos influenciadas por conceitos filosóficos de moderação, de repartição equitativa ("némesis"), lançam-se decididamente numa via de obtenção de riquezas, com o único objectivo de desfrutar delas, e não de melhorar as condições gerais da comunidade.

Quando, no seio da "aristocracia" ou no seu perímetro de influência, alguém rompe o respeito ético pela "moderação" e se lança (como "tirano") na via do enriquecimento egoísta, rapidamente constata que poderá obter um apoio "interessado e ilimitado" das classes mais populares, e menos cultas.
Estava aberta a via para a democracia, obtendo demagógicamente o amparo e o assentimento dos que viam no enriquecimento desmesurado (relativamente ao que já possuiam) o seu objectivo vivencial.

A nova classe de comerciantes, enriquecidos e ignorantes, foram o grande apoio da oligarquia que constatou a importância da sua colaboração. A comunidade perdeu gradualmente a sua base de solidariedade, comprometendo-se em relações de valores materiais, provocando o esvaecimento das relações assentes em valores éticos.
A economia ("oikonomia") cedeu perante a crematística (de "khréma", possessão de riqueza), e a "aristocracia" perante a democracia".

O conceito de crematística foi desenvolvido por Aristóteles (384-322 EP) , que designava a "hubris" como "ultraje", como refere na obra "Ëtica a Nicómaco", dirigida a seu filho.
Para Aristóteles, o Homem éticamente bom é aquele que realiza convenientemente a sua função, a sua finalidade ("télos"). Para um devir plenamente humano, o Homem deve desenvolver o que o faz ser reconhecido como fazendo parte da comunidade dos humanos, afastado da especulação e da desmesura.

Se atendermos aos escritos de Tomás de Aquino (1225-1274 EA) constatamos que ainda na Idade Média era proibido aos cristãos a prática da usura, largamente utilizada pelos judeus (que não estavam submetidos a essa regra ética), e que era aproveitada pelos monarcas, obcecados pelos dogmas cristãos, mas largamente condescendentes com esses propósitos quando praticados em proveito próprio.
Notemos, e.g., na época do rei-usurpador Alfonso Anriques, protegido do sefardita Egas Moniz, a actividade crematística do judeu Jachia Ibn Jaisch foi considerável para os cofres da monarquia de então. Aliás, a monarquia portuguesa, temente aos pecados da usura, nunca deixou de aproveitar os que beneficiavam de uma doutrina religiosa absolutamente tolerante com esses processos ; e como a mesma mentalidade era usual nas restantes monarquias europeias (e até no seio da Igreja apostólica romana) não será surpresa as fantásticas fortunas acumuladas no seio do "povo eleito", e que tão transcendente influência tem tido na História da Europa, desde o fim do Império de Roma até à actualidade.

A aplicação da ideologia democrática no seio dos sistemas políticos tem duas finalidades principais :
1. interessar os mais diversos indivíduos num objectivo material directamente implicado no bem-estar por em cima de qualquer preocupação ética ou cultural ; fundamenta-se na exacerbação dos instintos mais básicos e no egoismo face à solidariedade.
2. manter os povos amalgamados em populações, e estas concentradas em urbes asociais e inseguras, por forma a manipula-los pelo medo, pela desinformação e pela compulsão ao consumo, e assim assegurar-se da perenidade do poder.

A existência da lei escrita é originária do "tirano" Dracon, mais de um século antes da "democracia de Clístenes", a reforma agrária, a reforma censitária, a constituição do Conselho dos Quatrocentos para discutir as propostas provindas do povo, e a possibilidade de recorrer uma sentença considerada iníqua, são obra de Sólon, também anterior a Clístenes.

O que a democracia trouxe de fundamentalmente novo resume-se em dois conceitos : demagogia e partidos políticos.

Se as primeiras experiências de democracia na Antiguidade Grega, e também da República Romana, não comportavam ainda os partidos políticos, pelo menos na sua formatação actual que somente se manifesta no século XIX, porém, na democracia actual, os partidos políticos não somente aparecem como elementos indispensáveis ao sistema político, como a sua participação se vai tornando hegemónica.

A partidocracia é uma forma de Estado pela qual as oligarquías partidárias assumem o poder politico concedendo ao "individuo eleitor", alienado e submisso, o direito de ser representado por "professionais da política", por aqueles que se dizem capazes de resolver os problemas sociais e que disso logram convence-lo.

Em partidocracia os actores principais e únicos do panorama político são os grandes partidos políticos com maioria absoluta, ou em coligação com outros partidos minoritários, que vão assumindo o poder, por turnos, seguindo um ciclo que passa por três etapas :
1ª triunfo eleitoral, 2ª desgaste, corrupção e progressivo afastamento dos eleitores, e 3ª esgotamento e substituição por outro partido com maioria absoluta ou em coligação de partidos. O ciclo volta a repetir-se com os novos ganhadores. E assim "ad infinitum".

A única alternativa ao poder omnímodo dos partidos e coligações eleitorais é a criação de uma sociedade civil forte, sólida, bem organizada e independente dos poderes públicos.
A verdadeira sociedade civil defende os interesses reais dos sujeitos (urbanos e rurais), enquanto os partidos e coligações actuam em defesa própria e da sua permanência no poder.

A sociedade civil está formada por um conjunto de organizações, associações, foros, plataformas cidadãs, fundações e instituições cívicas voluntárias que formam a base de uma sociedade activa, em oposição as estruturas do Estado, das grandes empresas, do entramado financeiro e dos "domesticados" meios de informação.

Os partidos passam a assumir um crescente controlo sobre o exercício da representação popular, submetendo os demagógicamente denominados "representantes do povo" a uma rígida disciplina partidária. Se não aceitam as regras do jogo partidário, são expulsos ou marginalizados.
Deste modo o "regime democrático" converte o Estado num permanente desafío entre partidos, que recorrem ao ingénuo "eleitor-pagador de impostos" para desempatar as suas desavenças "caseiras", pois o "realmente importante" nunca o "sistema politico" deixará ao alcance de discussões públicas.

Delegar o nosso poder de decisão naqueles que utilizam um eleitorado conformista e acrítico para chegar ao poder, é proporcionar aos partidos políticos a defesa dos seus própios interesses, pessoais e de grupo.

Confrontados com um Estado que é mero instrumento de uma ideologia imposta por um "sistema politico" invisível, através de um "regime" demagógico e intolerante, cremos que a "sociedade civil", como contrapartida ao poder politico instituido através do Estado partidocrático, poderá constituir-se como fenómeno esclarecedor e fundamentar uma linha programática de projecto nacionalista anti-democrático.

A Comunidade pode vencer o Estado, e consequentemente derrubar o castelo de cartas arquitectado pelo "sistema politico", abrindo uma nova via, uma nova esperança, às nações, aos povos e aos individuos… a todos nós !

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Sistema Oligárquico e Regime Democrático ( V )




.

do Sistema e do Regime…
.

"Toda ideia nova nasce apesar da evidência"
Gaston Bachelard (1884-1962)

A perspectiva conceptual do que nos rodeia repousa sobre a nossa utilização da linguagem, pois ela constitui o nosso horizonte de compreensão, ou melhor dizendo, a nossa estrutura de compreensão, actuante como uma tarefa prática sobre a interpretação de dados históricos sobre os quais devemos ser plenamente conscientes, pois "a História é portadora de sentido" (Hans-Georg Gadamer :1900-2002).

Empregamos frequentemente o vocábulo "política" com um criterio orgânico que provém em linha directa de Aristóteles e da sua concepção organizativa da "polis", noção que se foi "sedimentando" através dos Impérios centralizadores, reforçada pela "Ordenança de Villers-Cotterêts", emitida pelo rei francês François I, no século XVI, e que institui desde França um primeiro conceito de Estado-Nação, reforçando a "imagem" de uma dependência "Política-Estado".

"A nossa dependência do mundo das imagens é mais forte, mais constitutiva do nosso "ser", que a nossa dependência do mundo das ideias", escrevia Gaston Bachelard (1884-1962) no "Adormecido desperto".

Com efeito, a "imagem" da política como acto de Estado impôs-se à "ideia" (conceito adequado) de "política" como facto social, assumindo-se a "política" como acto independente do "facto social" e impondo-se a este a partir de uma estrutura de "regime" denominada Estado.
Esta inversão de valores, retirando ao acto político a sua iminente dependência do facto social, resultou na perversão da governabilidade como componente do facto social, transformando-a em dirigibilidade como acto de Estado.

O facto social desenvolve-se segundo três critérios (Durkheim 1885-1917), generalidade, exterioridade e coercitividade, e o governo do povo que constituia a "polis" (conjunto urbano e rural) realizava-se por inerência, de que eram encarregues os melhores ("aristos"), os quais, em momentos de perigo para a comunidade ("exempli gratia", uma ameaça externa, ou uma crise social), nomeavam um responsável pela aplicação de normas de excepção.

Essa função está na origem da posterior formação do sistema político denominado monarquia (do gr. "monos", único e "archein", comandar - "comando num só") chefiado por um monarca ("Basileus") que se fará rodear de apoiantes denominados "nobres".
Se a "aristocracia" se fundamentava nos "melhores" ("aristos"), a "monarquia" baseava-se naqueles ("nobres") em quem confiava o monarca, que lhes atribuia, e a si mesmo, um poder hereditário.
Em Atenas, onde o monarca habitava um local designado "Stoa Basileos", a "monarquia" foi abolida nos principios do século VII EP, mas manteve-se noutras "polis" e no decorrer da História europeia foi largamente utilizado, embora já como "sistema político", apoiando regimes diversos, desde o absolutismo ao parlamentarismo.

Regressando à analise da "monarquia", verificamos que esta se converte em "tirania" (de "turannos", um termo provavelmente originário da Anatólia) sempre que a função de "basileos" ("rex" em latim) é assumida peremptoriamente.
Em Atenas, Dracon, Sólon e Clístenes (que evidenciou a "demos" "kratia") foram "tiranos", termo que não era sinónimo de violência nem de crueldade, mas que designava um "chefe absoluto". Pittacos de Mitelene e Periandro de Corintio foram tiranos, o que não impediu de serem nomeados entre os "sete sábios" da Antiguidade.
Como curiosidade, citamos o facto de, em Atenas, no final da guerra do Peloponeso (404 EP), ter existido um efémero (oito meses…) governo constituido por trinta magistrados ("hoi Triakonta"), designados como tiranos, e que ficou conhecido como o governo dos "Trinta Tiranos".
A organização política de Esparta, com dois reis que, mutuamente, podiam anular as decisões, evitou-lhe a experiência dos tiranos, o que não significa a ausência de abusos de poder.

A esse tipo de "regime", denominaram os romanos "ditadura" (etimologicamente, "ditador" é "aquele que fala"), e que designava na época da República uma magistratura excepcional que atribuia grandes poderes a um só homem, embora condicionados por legislação e limitados no tempo (seis meses no máximo).
Lucius Cornelius Sulla (Sylla) Felix (138-78 EP), foi ditador e renunciou voluntariamente ao cargo, regressando à vida privada.
(nota: Sulla era a tradução latina do nome grego Sylla, pois em grego clássico antigo "y" ("ipsilon") pronunciava-se como o "u" francês ou o "ü" em alemão. Em grego moderno pronuncia-se como "i".)

Abrimos um pequeno parêntesis para relembrar que um "sistema político" é uma organização política composta por três estruturas :
- estrutura ideológica : "regime político" que formata o Estado (poderes executivo ; legislativo e judicial).
- estrutura financeira e económica.
- estrutura social : saúde ; educação ; obras públicas…

Tenhamos presente de que é no contexto do "sistema político" que se desenvolve e determina a "ideologia" do poder político, sendo o "regime político" o processo utilizado na aplicação dessa ideología através de uma instituição, mais ou menos complexa, mais ou menos aparente, que denominamos Estado, definido como organização política e jurídica de uma sociedade, mas na realidade um conceito tão variável que determina desde a "polis" da Antiguidade grega, o "L'État c'est moi…" de Luis XIV no século XVII, ou os omnipresentes Estados "fascista" e "comunista-marxista", do século XX (o Estado-Nação).
A noção de Estado, para o qual Georg Simmel (1858-1918) ressalta as singularidades, é na Antiguidade uma noção difusa, e foi Maquiavel que objectivamente a utilizou sob a forma vocabular de "stato", termo que Arendt (1906-1975) origina no latim "status rei publicae" (equivalente a "forma de governo").

Ainda com referência a "ideología", mais importante hoje do que há 50 anos, apesar do "sistema politico" actual pretender o contrário, o termo, designando o estudo das ideias e a sua relação com os símbolos que as expressam, foi forjado por Destutt de Tracy em 1796 ("Mémoire sur la faculté de penser"), que o compôs a partir do latim "idea" ("ideia") e do grego "logos" ("razão", "discurso") ; um vocábulo compósito, já que em grego "eidós" ("forma", "ideia" em Platão) exprime mais o sentido de "imagem".

Vários pensadores gregos, como Platão, Aristóteles ou Políbio enunciaram os vários tipos de organização que podem apresentar as formas políticas de governo.
Salientemos que não faziam distinção entre "sistema político" e "regime político", apresentando-os na totalidade sob esta última designação. "Insignes" teorizadores continuam, conscientemente ou não, e com rigor relativo, a amalgamar "sistema político" com "regime político", porém, o que se pode compreender na época dos pensadores citados, parece-nos menos entendível no presente, exceptuando os casos daqueles que por razões de interesse político pretendem que, e.g. a "democracia", seja considerada um "sistema político" !

Platão coloca ênfase na qualidade dos "regimes" e na sucessão lógica, que não histórica, dos mesmos.
"Enquanto os filósofos não forem reis nas cidades, ou que aqueles hoje denominados reis e soberanos não sejam verdadeira e seriamente filósofos ; enquanto o poder político e a filosofia não se encontrarem no mesmo individuo ; (…) não haverá fim, meu caro Glauco, aos males das cidades, nem, me parece, aos do género humano (…)"
(Platão - República, V, 474 a)

Desde o "filósofo-rei" (não "rei-filósofo" como alguns referem), que detém nas suas mãos o conhecimento e o poder e que representa um ideal, uma "perfeição política", Platão cita a "timocracia" (fundamentada na honra), a "oligarquia" (poder dos ricos), a "democracia" (regime demagogicamente igualitário) e, como consequência, a "tirania" (fundamentada nos desejos do tirano).
Esta classificação é, obviamente, subjectiva !

Para Aristóteles os "regimes", numa primeira aproximação a "sistema político", são classificados segundo uma perspectiva quantitativa (número de titulares que detêm o poder), enunciando a "monarquia" (poder centrado num individuo), a "aristocracia" (poder de um grupo) e "república" (controlo do poder nas mãos do conjunto de cidadãos).
Desde estes "regimes" ("sistemas"), considerados justos pela sua "utilidade pública", podem gerar-se situações injustas de "interesses particulares", tais como a "tirania", a "oligarquia" ou a "democracia", formas preversas de, respectivamente, a "monarquia", a "aristocracia" e a "república".

O historiador Polibio (210-126 EP) aplica ao destino dos "politeiai" ("politeia", conjunto de cidadãos e normas de governo) a noção de "anaciclose" (do gr. "an-", de novo e "cyclose", movimento), que na astrologia/astronomia da época pretendia significar um ciclo completo, com retorno das esferas celestes (posição dos astros vistos desde a Terra) à situação inicial.
Políbio designava umas formas de governo que se sucediam até que, a partir de uma delas, se voltava à forma inicial. Um movimento constante, ciclico, não fixo no mesmo plano como um circulo, mas sim em espiral, "dialéctico" em linguagem filosófica.
A tipologia de governos, numa "anaciclose" de seis fases, iniciava-se com a "monarquia" que degenerava em "tirania", substituida pela "aristocracia" que se degrada em "oligarquia". Esta recorre à "democracia" que conduz o governo à pior das situações, a "oclocracia".
O "regime" seguinte será a recuperação através de um homem providencial, que restaura a "monarquia" e… inicia um novo ciclo.
Curioso notar a distinção feita por Polibio entre "democracia" ("poder do povo") e "oclocracia" ("poder da multidão").

Todos eles (Platão, Aristóteles e Políbio) concordam num aspecto: a "democracia" é das piores (senão a pior) formas de governo, não porque (teoricamente) pretende incluir o povo na governação, mas porque, através dos políticos profissionais, usa a demagogia para o enganar e, assim, preservar o controlo do poder do "sistema político", seja ele uma aristocracia, uma monarquia ou uma república (oligarquia).

A democracia" é pois um "regime político" perverso (demagogo) utilizado por várias tipologias de "sistema político" para preservar o poder, entretenendo os povos com "pão e circo" (Juvenal) e manipulando-os até os converter num amálgama de "servos voluntários" (Etienne de La Boétie).