sexta-feira, 22 de junho de 2007

Sistema Oligárquico e Regime Democrático ( III )


.
dizem-nos
os pensadores

da Antiguidade…


Vejamos o que nos dizem alguns pensadores gregos sobre o regime democrático :

1. Eurípedes (Euripídês 480-406 EP)
A cidade que me envia não é conduzida pela multidão, mas depende de um só homem ; ela não tem oradores que a exaltem, e a movam em todos os sentidos ao capricho dos seus próprios interesses.
in "As suplicantes" ("Hikétides") em 414 EP.

2. Tucídedes (Thoukudídês 471-400 EP)
Péricles tinha obtido uma autoridade que lhe permitia conter o povo respeitando a sua liberdade.
[...] Teoricamente o povo era soberano, mas na realidade o Estado era governado pelo primeiro cidadão da cidade.
in "Guerra do Peloponeso", II, 65.

3. Platão (Aristoclès aliás Plátôn 427-348 EP)
… o pai habitua-se ao dever de tratar o seu filho de igual para igual e a teme-lo, o filho iguala-se ao pai, não tem vergonha de nada e não teme os seus pais, porque quer ser livre ; o meteco (estrangeiro residente) iguala-se ao cidadão e o cidadão ao meteco, e o mesmo para o estrangeiro (não residente).
(…)
A tudo isto, acrescentem-se outros inconvenientes : o professor, em certo caso, teme os seus alunos e lisonjea-os, os alunos não têm respeito pelos professores, nem por todos aqueles que deles se ocupam ; e, para tudo dizer, os jovens imitam os mais velhos e opõem-se a eles em palavras e actos, enquanto os mais velhos se rebaixam ao nivel dos jovens, manifestando-se através de truanices e brincadeiras, imitando-os para não parecer desagradáveis e despóticos.
in "Republica", VIII, 563a-563b

Um chama-lhe democracia, outro denomina-a como mais lhe convém, mas em verdade é uma aristocracia com o consentimento do povo.
in "Menexenos", 238 c (frase incluida numa oração fúnebre - "epitaphios logos")

4. Aristóteles (Aristotelês aliás "o estagirita" 384-322 EP)
Esta democracia é, no seu género, o que a a tirania é à realeza. De uma parte e da outra, os mesmos vicios, a mesma opressão dos bons cidadãos : aqui os decretos, ali as ordens arbitrárias.
Além de que o demagogo e o bajulador têm uma semelhança chocante.
Os dois têm um crédito sem limites, um sobre o tirano, o outro sobre o povo por ele corrompido.

in "Política", VI, XIII

5. Políbio (Polúbios 210-126 EP)
O povo ateniense sempre se assemelhou a um navio.
Enquanto os que estão a bordo receiam a tempestade ameaçadora, todos concordam em obedecer ao piloto e cumprir com os seus deveres ; mas quando já não têm medo, desprezam os que os comandam e enfrentam-se a eles, pois têm pontos de vista diferentes.
Uns querem prosseguir a viagem, outros querem forçar o piloto a rumar a terra. ; uns abrem velas ao vento, e outros ordenam que as recolham.
As suas disputas são um espectáculo vergonhoso para aqueles que os observam do exterior e põem em perigo a sua própria segurança.
in "História", VI, 44.
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comentário
Desde os contemporâneos do regime democrático as críticas sempre foram rotundas e acerbas.
Era claro que o sistema politico (tirania, aristocracia ou oligarquia) utilizava a democracia como forma preversa de manter o poder criando a ilusão de que era o povo ou, nas palavras de Políbio, a multidão quem governava ("oclocracia").
O regime democrático não iniciou a "lei escrita", existente desde os tempos de Drácon, nem foi precursor da legitimização da Justiça, desenvolvida por Drácon e Sólon, nem "inventou" a toma de decisões por votação, já existente (em casos concretos) desde os sumérios e os fenicios.
Onde a democracia foi inovadora, relaciona-se com o propósito demagógico, com a manipulação dos individuos para propósitos objectivamente dirigidos ao enriquecimento dos grupos de poder e à manutenção desse mesmo poder.
Porém, os processos de coacção mental eram rudimentares e os propósitos não poderam afirmar-se. Se a essa instabilidade no controlo do poder aliarmos a quebra do enriquecimento, por razões relacionadas com a inexistencia de um poder financeiro independente das transacções comerciais, encontramos as causas que fundamentaram o esvaecimento do regime.

Posteriormente, havendo solucionado os dois citados impedimentos, pelas técnicas psicológicas, pela tecnología electrónica e pelo controlo mundial dos meios de capitalização, uma poderosa oligarquia apoderou-se do poder e permite, localmente, o seu exercicio a grupos políticos ("partidos políticos") que mais não são, a seu nivel respectivo, que funcionários de um poder mundial ("Novos Ordo Seclorum").
A nível de cada país, enfrentamos uns escolhos (partidos, governo e Estado) que não passam de um aglomerado de títeres directamente interessados na manutenção do seu "status quo", e indirectamente, mas objectivamente (apesar de muitas vezes sem consciência do facto), servos de um tentacular poder.
Um poder omnipresente nos cometimentos sociais, económicos, politicos e religiosos de cada um de nós, e que por ele somos considerados como um simples "eleitor-pagador de impostos", um peão no tabuleiro de xadrez universal.
Mas, não esqueçamos que um peão "promovido" pode dar "cheque-mate". A nós de nos promovermos !

3 comentários:

gelmirez disse...

Las fuerzas o poderes ocultos que están en la trastienda.........

Maria disse...

Justìssimamente como escreveu. O peão, tendo embora uma vontade indómita - pressente-se que a tenha no seu subconsciente, não sendo absolutamente certo por varidíssimos motivos, que a possua efectivamemte, já - de fazer esse 'cheque-mate' a que alude, das duas, uma, ou não tem força suficiente para o executar no momento presente, ou, tendo-a, há forças tentaculares poderosíssimas que não o deixam simplesmente avançar. O supra-poder tentacular mundial, na fase histórica em que nos encontramos, é demasiadamente asfixiante, poderoso e temível para o simples peão conseguir dar um micro-passo, sequer, muito menos um passo de gigante, aquele concreta e efectivamente necessário. Porém e como é subentendível das suas palavras, nunca substimemos em demasia a ´força' dos indivíduos livres, os não estão nem nunca estiveram ligados aos poderes e que são, afinal, a enormíssima maioria que habita os países e por arrastamento, o mundo. E, inconscientemente ou não, muitos destes sabendo vagamente que o são e que a têm ainda não a sobrepesaram nem se conciencializaram o suficiente para fazerem o tal cheque-mate, desvalorizando o enorme e genuíno poder que eles próprios detêm. E este facto, pela simplicidade extrêma da sua constatação, surpreende até os mais distraídos.
Parabéns pelos belíssimos textos que vai transcrevendo bem como pelas lúcidas palavras que lhes apõe.

Maria

António Lugano disse...

Prezada Maria
Honra-me com a fidelidade do seu apreço.