sábado, 5 de maio de 2007

Conceito de Nacionalismo 2/2





O homem culto
tem a sua energia dirigida para dentro,
o civilizado para fora.
Oswald Spengler (1880-1936)


II

O real é, possivelmente, uma ficção inspirada pelo imaginário, e a História talvez não passe de um acto de invenção (no sentido de descoberta), pelo que, se do mito regorja a realidade humana, diremos (citando Antonin Artaud -1896/1948) que "onde se sente o ser, sente-se o imaginário".
A questão está em determinar a fronteira entre o real e o mito, entre a razão e a imaginação!

É bem sabido que as realidades são instáveis, pelo que a tentação de impor imaginários como sequências do real é um ideal politico bem conhecido pelos demagogos, sempre prontos a aconselhar a servidão voluntária a ignorantes bem alimentados e convenientemente manipulados pelos "intelectuais democratas", esses defensores acérrimos dos valores de mercado, colaboradores do realismo capitalista como outrora colaboraram com o realismo marxista.

O ideal democrata, na versão dos citados "intelectuais", é como um sacrificio não ressentido, uma cedência soberba para auto-satisfação.
Mais não são que afirmações vazias de conteúdo que, na vivência quotidiana, anunciam e pontificam actuações egoístas, drasticamente divergentes do ideal mitológico da partição que a humanidade crê ter feito com os deuses, ou consigo mesma, para compreender o mistério que lhe permitisse encontrar respostas às dúvidas que formula.

Conduzidos por esses arcanjos do "time is money", os "humanos" (como diria Nietzsche), redutoramente consideram a vida como um processo unidimensional, lapso de tempo entre dois acontecimentos, sem superficie nem volume, de provável passado e eventual futuro, enquanto se deixam envolver, como num abraço de urso, pela dificuldade em conseguir consciencializar a sua vivência e determinar-se como "Ser" (o "Dasein" de Heiddeger) sem o subordinar ao "Ente" ; ou seja, em assumir a essência do "ser", e secundar a aparência do "ter".

Os designios da sociedade que nos toca viver são exclusivamente civilizacionais ("dirigidos para fora" - Spengler) pelo que a intitulada "cultura moderna" (uma adjectivação metafórica) constitui como objectivo, antes de qualquer outra razão, a negação da Cultura (sem adjectivos), instituindo um tempo acelerado e agitado, oposto a qualquer forma de tranquilidade, de "ataraxia", e objectivamente impedindo a ponderação necessária ao raciocinio …

Somos condicionados a uma atitude agitada, a uma permanente intranquilidade conduzida pelo relógio do coelho da "Alice no País das Maravilhas", aquela obra satirica de Charles L. Dodgson (Lewis Carroll) em que um coelho com um grande relógio corre todo o tempo gritando que está atrasado… sem nunca precisar de que atraso se trata.
Vivemos imersos num paradoxo temporal, num absurdo orientado ao desejo compulsivo de possuir ("hybris")!

Em "Humano, demasiado Humano" ("Menschliches, Allzumenschliches"), Friedrich Nietzsche escreve :
"Essa agitação torna-se tão grande que a cultura superior já não pode amadurecer os seus frutos; é como se as estações do ano se seguissem com demasiada rapidez. Por falta de tranquilidade, a nossa civilização transforma-se numa nova barbárie. Em nenhum outro tempo os activos, isto é, os intranquilos, valeram tanto."

A asfixiante pressa com que o "humano" trabalha, vício peculiar ao Novo Mundo e que contaminou a velha Europa, sobre ela espelha uma singular ausência de mentalidade critica. O descanso envergonha, e a reflexão quase produz remorso.
Como no periodo laboral, também nos tempos livres, condicionado como está pelo movimento, o "humano" necessita ruido e bulício, e faz as refeições, outrora um momento de descanso e de reencontro com a familia, em pé, devorando um "qualquer coisa", com os olhos voltados para a televisão, que lhes diz sobre que pensar e como.
Vive, ou melhor, existe como se a todo instante pudesse perder alguma oportunidade insuspeita, pelo que decide que "é melhor fazer qualquer coisa do que nada", princípio esse que está na base do processo de liquidação da Cultura, confundida com o "saber técnico".
"Fazer algo" é "executar obra", é produzir o que tenha valor de transacção!

Teoriza-se política "assemblando" conceitos, como quem monta um "legos", com base num "saber" assente na memorização de teoremas, fórmulas e leis, e quem assim procede sente-se no direito de expressar comentários "sobre tudo e coisa alguma", como se um técnico de construção civil, por esse facto, tivesse legitimidade para se expressar sobre Astronomia.

O que a "cultura moderna" dissimula, porque lhe é contraditório, é que a posse de um diploma universitário, por si mesmo, indicia tanto o grau de cultura do seu titular, como um curso de gramática indicia um poeta.
A "barbárie" da especialização foi claramente definida por Ortega y Gasset, não como complemento da Cultura, mas como anti-Cultura.

III

Também os pensadores do discurso político, agitados, apressados e especializados, nem se apercebem em que poça metem o pé, nem em que chapéu escondem a cabeça!
Segundo normas do "business", consideram imprescindível mostrar actividade (que continuam a confundir com produtividade), o que, como encobrimento de deficiência própria, os leva a copiar com atenta reverência o que outros, noutras paragens e latitudes, decidem entre eles.
Não me refiro, obviamente, à transcrição de textos para estudo e análise, mas sim às cópias bovinas sem qualquer cuidado de referenciar o contexto cultural do original, habitualmente nos antípodas do caseiro.

Alguém me comentava, num raciocinio à Ramalho Ortigão, que o pesadelo tem algo de bom, pois desaparece quando despertamos.
Assim que, despertemos e procuremos, sem pressas nem cópias, bem delimitar o conceito de Nacionalismo, como defesa de uma identidade nacional, um sentimento de pertença a uma comunidade étnica e cultural denominada Nação.

Embora o vocábulo ainda não tivesse sido criado, Nação era o conceito que já aflorava nas tribos e clãs do neolítico europeu e que se manteve através das culturas indo-europeias (germanas, celtas, eslavas…).
É a partir dos Valois, ramo da dinastía dos Capetos, e precursora dos Bourbons, e da Guerra dos Cem anos (1337 à 1453), que se preverte o conceito inicial de Nação, afastando-o de uma noção de homogeneidade e complementariedade, e favorecendo o amalgama de povos e territórios em favor de uma crença conduzida pela mitologia da Jeanne D'Arc, como para outros pelo Nuno Alvares ou pela padeira de Aljubarrota.
Em 1539, a "Ordenança de Villers-Cotterêts" (192 artigos), assinada pelo rei Francisco I, entre outras coisas impõe a lingua de "Oil" como "exclusiva lingua de França", em prejuizo de outras expressões culturais como, por exemplo, a lingua occitana (lingua de "Oc") em que se expressavam os trovadores, cujas canções de amor e de amigo chegaram até ao NO Ibérico.
É o incio do caminho que desemboca no absolutismo real e no centralismo jacobino.
Mais tarde, em pleno século XIX, e desbordando sobre o século seguinte, o conceito de Nação dilui-se nas noções de País e de Pátria !

Optando por um posicionamento de perspectiva e circunstância, basicamente definimos a nossa proposta nacionalista como uma intenção de conjugar a vida do individuo com a organização social em que vive, permitindo-lhe superar, através de uma análise crítica permanente, as contradições eventualmente surgidas na confluência do individuo e da comunidade.
Uma cumplicidade entre nacionalismo como comunidade consentida e vitalismo como vivência assumida!

Esta cumplicidade entre o ser-humano e o meio social, entre o nacional e o vital, origina um projecto que não pretende ser, que não é, uma teoria política mais, uma etiqueta eleitoral entre as demais que o "sistema politico" põe a disposição do individuo-consumidor.
Recorrendo a Platão, e à metáfora da tecelagem, diriamos que o projecto "nacionalismo-vitalismo" é o tecido que protegerá o individuo dos excessos dos "profissionais" da política, e da sua subserviência a estratégias alógenas que, pelo seu poder mediático e financeiro, os induz a serem demagogos e incompetentes, e não raramente corruptos.

Afirmação de vontade e de responsabilidade, pretende ser a expressão das necessidades e das suficiências de um povo, qualquer povo, objectivamente voltado para uma vivência integrada na Natureza de que é parte, vivendo "segundo uma economia" bem ordenada que lhe permita um relacionamento adequado entre "praxis" e "poiesis", e não "para uma crematística" que faz dele um compulsivo "produtor-consumidor".

Tentemos compreender a relação "nacionalismo-vitalismo" como uma filosofia de vida, e simultâneamente uma organização comunitária que permita essa vida.
Cremos que expressa os valores éticos e estéticos a que a tradição nacionalista europeia nos teria conduzido se tivesse havido a coragem e a decisão de recusar a redutora e totalitária decisão dos Valois, confirmada pelo "complot" maçónico de 1789 e exportada por Napoleão Bonaparte, um "iniciado" da loja maçónica "Grand Orient".

O projecto "nacional-vitalista" propõe um regresso à comunidade de interesses entre pessoas livres, à vivência como expressão do "ser" e à convivência como empatia social.
Partindo da Nação, poderemos alicerçar uma Europa dos Povos.
A única Europa que valerá a pena viver!

4 comentários:

PintoRibeiro disse...

Lapidar, o final.

bf_europa disse...

Muito bom, para não variar. A importante distinção feita na primeira parte entre cultura e civilização foi bastante oportuna. Curiosamente a minha memória dizia-me que fora ao ler Jünger que primeiramente fora confrontado com essa preocupação de diferenciação. Mas agora, vendo a citação de Spengler, fiquei na dúvida... Quanto ao tratamento da "questão nacionalista": certeiro... somente mais um tijolo no edifício doutrinal que tem vindo aqui a ser erigido.

Muito importante também o tratamento dado ao equilíbrio entre individualidade e comunidade, entre liberdade e ordem, no binómio "nacionalismo-vitalismo". Um jogo de balanceamento de complexo tratamento e justificação filosófica.

Rodrigo

ps. Caro António, o sistema de comentários está novamente limitado às contas do blogger ou do Google( tive de abrir uma para poder aqui escrever)

António Lugano disse...

Grato Rodrigo!
Voltei a sistema de comentários para tentar impedir certas situações como a de me enviarem uma frase em 17 comentários (1 comentário por palavra!).

António Lugano disse...

para pintoribeiro
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Agradeço a sua apreciação mas... porquê só para o final?
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Cordial Saudação